quarta-feira, 17 de novembro de 2010

"A certificação passou a ser estratégia do negócio e não um custo", diz Imaflora


O mês de novembro será importante para quem acompanha o debate sobre certificação florestal e agropecuária. Primeiro pelo aniversário, no último dia 3, de 15 anos do Instituto de Manejo e Certificação Florestal e Agrícola (Imaflora), importante divulgador e participante dos conselhos dos selos de certificação FSC e RAS. E segundo pelo evento que acontece nesta terça-feira (16/11) que pretende elevar as discussões para um novo patamar.

Esse novo “patamar”, segundo o secretário-executivo do Imaflora, Luís Fernando Guedes Pinto, significa que a certificação deixou de ser vista como um custo e passou a ser uma estratégia de negócio. O evento pretende ampliar o diálogo com o setor financeiro e o varejo. “Não é um diálogo só com aquela empresa florestal, com aquele produtor de café, como a gente fazia antes. Estamos pautando os bancos, os investidores, os acionistas, as políticas mais macro possível”, explica.

Um fato que ressalta a força que os selos ganharam foi o surgimento de “auto-certificações”, criadas pelas próprias empresas para atestarem que seus produtos possuem responsabilidade socioambiental. O desafio, segundo Luís Fernando será distinguir essa certificação dos selos FSC e RAS, que possuem ampla participação popular e transparência.

“Vamos ter que explicar para as pessoas que existem certificações e certificações, e que a gente está trabalhando e quer posicionar essas certificações que têm credibilidade e que geram impactos [FSC e RAS]. Não queremos a auto-certificação, sem transparência, sem participação social”, explica.
15 anos Durante os 15 anos de atuação do Imaflora, Luís Fernando acredita que há muito que se comemorar, principalmente o apoio que a organização deu para que hoje a certificação seja um tema mais divulgado. “A certificação era um instrumento internacional, um instrumento que os brasileiros não entendiam, e a gente tinha como propósito trazer esse instrumento para aumentar a governança no setor florestal e agropecuária”, explica.

Veja aqui informações sobre o evento:

Amazônia.org - O que há para ser comemorado nesses 15 anos de Imaflora?
Luís Fernando - Acho que a primeira coisa é a contribuição do Imaflora para o entendimento e a aplicação do instrumento da certificação socioambiental no Brasil. O Imaflora foi criado, além de outras coisas, para “abrasileirar” ou “tropicalizar” o instrumento da certificação socioambiental, que tinha nascido na Europa e nos Estados Unidos no final da década de 80, começo da década de 90.
A certificação era um instrumento internacional, um instrumento que os brasileiros não entendiam, e nós tínhamos como propósito trazer esse instrumento para que ele aumentasse a governança no setor florestal e agropecuário, aumentasse a transparência nas cadeias produtivas florestais e agropecuárias, e que capitalizasse mudanças socioambientais no campo.
Embora ainda tenha muita coisa pra fazer, nesses 15 anos a gente deu um passo importante. Esse instrumento passou a ser conhecido e aplicado, em alguns setores com uma escala maior, em outros, menor.
Vários setores da sociedade brasileira já entendem o que é certificação, como o empresariado, as comunidades da Amazônia, ONGs, empresas, movimentos sociais e sindicatos de trabalhadores rurais.
Acho que ainda tem muito que fazer, mas acho que essa é a primeira grande coisa a comemorar.
O Imaflora tem formado muitas pessoas para trabalharem, não só com a gente, mas pessoas que estão trabalhando em outros setores, em ONGs parceiras, no setor empresarial, no setor financeiro. Isso é outra coisa importante para comemorar.
Temos para comemorar o grande número de parcerias que a temos hoje. As parcerias com entidades e movimentos sociais, as participações no fórum brasileiro de ONGs, a participação na moratória da Soja, enfim, uma série de iniciativas nacionais e internacionais e que o Imaflora tem parceiros ou ele é membro ativo e participativo sempre de coisas inovadoras que estão ligadas ao setor florestal e agropecuário.
A gente se esforçou muito e tem a comemorar, embora ainda seja pouco, o fato de levar a certificação para as comunidades que é uma coisa muito importante. Dar possibilidade para as comunidades também fazerem parte disso, de serem certificadas, de terem seus produtos diferenciados e posicionados no mercado. Isso é onde a gente ainda tem mais que avançar.

Amazônia.org - Você acha que visão das pessoas, principalmente dos consumidores, mudou em relação à certificação? É possível dizer que há avanços no meio de tantos selos e informações confusas?
Luís Fernando - Os avanços são muito grandes em relação ao que era isso [a certificação] no começo da década de 90. As pessoas não sabiam o que era certificação e o que era um selo. Hoje a gente tem dificuldade porque são muitos selos. Estamos em outro momento.
O consumidor final, lá na ponta, ainda tem pouca informação e muita dificuldade, mas o formador de opinião já sabe o que é isso. O formador de opinião da ONG, da organização de consumidor, do sindicato, da empresa, do governo. Hoje a gente está em uma grande evolução porque os tomadores de decisão já sabem o que é a certificação, e acho que o Imaflora é uma das entidades responsáveis por isso, não somos a única, obviamente. E agora estamos no momento de tentar atingir a massa, através do varejo.
Avançamos muito. A gente está em uma fase que esse instrumento, que essa referência da certificação cresceu tanto que agora se confundiu de novo. Até o formador de opinião tem dificuldade de saber se é certificação A, B, ou C. Mas é outro patamar, tanto é que esse evento que estamos organizando na semana que vem coloca a discussão em um patamar completamente diferente do que era há 15 anos.

Amazônia.org - E será focada a certificação agropecuária do RAS, que ainda é menos conhecida?
Luís Fernando - O evento vai falar desse instrumento da certificação nas cadeias produtivas, de maneira mais ampla, e vai ter como exemplo os principais selos do setor florestal e agrícolas do RAS. Mas vamos tentar pautar, nós e a Amigos da Terra, a questão econômica. Não é um diálogo só com aquela empresa florestal, com aquele produtor de café como a gente fazia antes, estamos pautando os bancos, os investidores, os acionistas, as políticas mais macro possível.

Amazônia.org - O Imaflora também pretende ampliar o debate com o consumidor final?
Luís Fernando - Como estratégia institucional, temos que criar novas parcerias que atinjam um público maior. O varejo é a grande novidade, porque faz a mensagem chegar ao consumidor final. A gente tem um papel, junto com a Amigos da Terra e outras entidades, de educar o varejo. Na primeira etapa tínhamos um papel de educar o empresário florestal, o empresário agrícola e a comunidade. Agora queremos atuar nessas duas pontas: quem está investindo e quem está levando essa mensagem para o consumidor. E são áreas que o Imaflora tem que trabalhar muito e criar novas parcerias para poder atingir essas duas pontas na cadeia produtiva.

Amazônia.org - Um dos indicativos de que a certificação ganhou reconhecimento são as chamadas “auto-certificações” lançadas pelas empresas. Eu queria saber como divulgar o FSC no meio de tantos selos. O que ele tem de especial para que ele seja o selo reconhecido?
Luís Fernando - Vamos ter que explicar para as pessoas que existem certificações e certificações, e que queremos posicionar essas certificações que têm credibilidade e que geram impactos. Não queremos a auto-certificação, a certificação sem transparência, sem participação social, isso não é desejável e não vai contribuir para a missão do Imaflora.
É preciso uma certificação que tenha credibilidade, que tenha transparência. Essa proliferação de iniciativas, por um lado, aumenta o conhecimento público sobre a certificação, mas por outro é uma ameaça a tudo isso que estamos construindo. Não queremos uma certificação qualquer, mas a certificação que gera mudança, que gera transparência e que catalise mudanças concretas, que faça diferença para a conservação dos recursos naturais e para as comunidades, que contribua para a melhoria das condições de trabalho e pro bem-estar social. Essa é certificação que a gente quer.

Amazônia.org - Há pouco tempo a gente escutava muito que certificação era cara, que aumentava o valor do produto final e não era competitiva. Isso ainda é realidade?
Luís Fernando - A certificação tem que ser vista como um investimento, não como custo. Essa mudança de escala que a gente está falando, de sair do nicho e ir pro varejo, ela implica em mudanças. E esses custos vão ter que ser compartilhados ao longo das cadeias produtivas. É possível que o consumidor final pague uma parte da conta, mas o produtor não deve ser o único a pagar essa conta. Pro produtor isso tem que ser um incentivo, e os incentivos tem que vir da cadeia: do setor financeiro, do varejo, dos processadores, e obviamente que isso também vai ser um investimento necessário para os produtores.
Historicamente, a certificação está ligada a nichos, onde os preços eram maiores, mas a tendência é que a gente encontre esses produtos nos supermercados, em qualquer loja e que o preço não mude. Os custos têm que ser compartilhado ao longo da cadeia produtiva sem deixar de ter estímulo para os produtores se certificarem. E isso é um grande desafio.

Amazônia.org - E as empresas estão topando esse desafio?
Luís Fernando - Sempre tem os pioneiros, que estão topando, estão interessados e super engajados. Esses saem na frente e têm mais benefícios que os outros. Depois os setores acabam sendo puxados pelos pioneiros, pelas oportunidades, pela entrada dos grandes consumidores corporativos que acabam puxando a cadeia toda progressivamente. Isso está começando em alguns setores, outros estão avançados, e para alguns setores isso ainda está no começo.

Fonte: amazônia.org.br e mercadoetico.terra.com.br

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