segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

9º Radar Imaflora - Floresta, geração de renda e gastronomia: combinação perfeita de ingredientes


Logo mais, concluídas algumas etapas que ainda restam, a merenda servida nas dezenove escolas quilombolas, na cidade de Oriximiná, na região da Calha Norte, no Pará, será acrescida de maior riqueza nutricional e forte simbolismo. Em oficinas que chegaram a reunir trezentas pessoas, a comunidade resgatou receitas dos antepassados que irão complementar a alimentação fornecida às escolas pelo governo federal. Diferentes formas de preparos de peixes, frangos, além de mingaus, chás e opções para acompanhá-los, com variadas formas de uso da castanha foram relembrados, documentados e confrontados. Ao fim do processo, que levou cerca de nove meses, foram recolhidas 45 receitas, que serão incorporadas ao cardápio dos estudantes de acordo com a época de colheita e excedente disponível para a venda entre os agricultores familiares.
?“Já ouviu falar em bolinho de inajá com crueira? Ou mingau de banana com manga e castanha? E desfiado de pirarucu?”, brinca Manoel Lucivaldo Siqueira, professor, integrante do conselho municipal e da diretoria da Associação das Comunidades dos Remanescentes de Quilombos do Município de Oriximiná (Arqmo), um dos responsáveis pelo sucesso da iniciativa. 

Resolução do Ministério da Educação, editada em 2009, determina que, pelo menos, trinta por cento dos alimentos da merenda escolar sejam provenientes da agricultura familiar da região. A intenção é promover refeições nutritivas, baseadas na cultura local e facilitar o acesso dos pequenos produtores aos mercados compradores. A edição da medida favoreceu o desenvolvimento de ações que visam equacionar a conservação da floresta e a geração de renda a partir de atividades econômicas tradicionais e do qual participam além do Imaflora, a Arqmo , a Cooperativa do Quilombo (Ceqmo),a Comissão Pró Índio, o Serviço Florestal Brasileiro, o ICMBio e a Universidade Federal Fluminense.
“Muitos moradores já faziam produtos à base de castanha, que eram vendidos em outras cidades. Agora, podendo vender os produtos para as escolas, os ganhos vão aumentar, porque a venda é direta”, conta Hugo Melo de Souza, diretor da Cooperativa, que reúne 33 comunidades quilombolas. Ele lembra que os alimentos destinados à merenda escolar atualmente saem de municípios distantes, grande quantidade deles são enlatados e muitas vezes sem a higiene adequada.
O engenheiro agrônomo, Roberto Palmieri, que coordena o projeto pelo Imaflora e que trabalha na Calha Norte, desde 2006, região importante por abrigar a maior extensão de florestas protegidas do mundo, com 28 milhões de hectares, é um entusiasta desse trabalho: “acredito que é uma forma de reduzir a pressão sobre o desmatamento, sobre o uso predatório dos recursos naturais, além de contribuir para o fortalecimento econômico das comunidades e da cidade. Isso, sem falar nos benefícios para a saúde das crianças, que passarão a receber uma alimentação mais nutritiva”.

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