quinta-feira, 7 de março de 2013

Floresta certificada e segurança nos negócios

 Por David Escaquete*

Ao final do ano passado, notou-se um crescimento considerável em número de certificações na floresta amazônica em relação aos últimos cinco anos. Em 2012, a certificação FSC®, conduzida pelo Imaflora, para o manejo florestal empresarial na Amazônia, teve aumento de 15% na área certificada, passando de 625.692 ha para 721.321 ha.

Esse crescimento deve ser comparado não só com os números dos anos anteriores, mas também com o cenário do Brasil e do mundo, para que seja possível entendermos as razões do crescimento, oportunidades e desafios trazidos pela mesma e pelas perspectivas que se anunciam para o setor nos próximos anos.

O crescimento da certificação, dado em grande parte pelas concessões florestais, pode na mesma medida ser desafio e oportunidade para a consolidação da certificação como ferramenta de promoção da conservação e benefícios sociais na Amazônia, visto que, a manutenção dessas certificações depende não só da vontade e disposição do empreendedor em manter essas áreas de floresta certificada, mas do quão saudável é esta iniciativa para os negócios. Isso poderá ser dado através da consolidação de uma demanda real de mercado de produtos certificados, o que ainda é um desafio não só para o Brasil, como para o mundo. 

Estudos mostram a viabilidade econômica do manejo florestal certificado quando comparado ao convencional, contudo, o mercado de produtos certificados deve ser estimulado e concretizado para que as atividades em bases sustentáveis realizadas nas florestas, não só sejam mantidas, mas também aumentem.

Ainda na pauta de crescimento da certificação na Amazônia, sabe-se que este ocorreu tanto em áreas empresarias quanto comunitárias, contrapondo-se ao cenário de crise financeira dos empreendimentos. Como isso se explica? A que se deve tal crescimento?

Uma das hipóteses, além das oportunidades trazidas pelas concessões florestais, é a certificação sendo utilizada pelos empreendimentos no sentido de assegurar sua reputação e, por conseqüência, a proteção da imagem dos empreendimentos, aspecto cada dia mais valorizado no mundo dos negócios. O raciocínio emprestado para justificar tal crescimento pode estar relacionado ao valor que a certificação associa ao produto e por conseqüência a quem privilegia a compra do mesmo.

Esta lógica já é uma realidade para empresas orientadas a atenderem o mercado americano e europeu de madeira, tendo em vista as maiores exigências relacionadas à origem florestal da madeira ditada por regulamentações governamentais, tais como, Lacey Act (EUA) e EU Timber/FLAGT na Europa. Este tipo de abordagem nos faz rediscutir os motivadores que impulsionaram até hoje o aumento da certificação, que ultrapassa a intenção única de vender com sobrepreço.

A princípio esta postura contraria a expectativa hegemônica da vantagem financeira direta na comercialização dos produtos certificados, mas deixa um espaço para a dúvida se tal fato configura-se em oportunidade ou mesmo um novo desafio para a certificação de florestas naturais no Brasil. Isso porque essas regiões, normalmente, estão atreladas a contextos socioambientais complexos, dado pela presença de atividades ilegais, conflitos com comunidades tradicionais, desmatamento, entre outros, que podem de alguma forma ser considerado como risco para a imagem das empresas que se associam direta ou indiretamente a atividades/produtos provenientes dessas áreas.

Para responder ao risco reputacional percebido por consumidores, que tem causado incômodo tanto em empresas quanto em governos do mundo todo, inclusive no do Brasil, a certificação florestal, como instrumento civilizatório e transformador deve proporcionar processos de certificação realizados com alto grau de rigor técnico, gerados a partir de uma análise minuciosa dos riscos socioambientais associados a cada empreendimento, privilegiando sempre a participação social e em um alto nível de transparência, além de conseguir responder as questões colocadas pelos diferentes consumidores, através da criação de “sinergia entre as soluções” propostas pela certificação e expressas nas normas de certificação e também pelas diferentes regulamentações dos governos, por exemplo.

Com base nessas reflexões, entendemos que as expectativas de crescimento e consolidação da certificação florestal na Amazônia terá como um dos principais desafios a consolidação de um mercado consumidor para os referidos produtos, seja ele privado ou público e que a responsabilidade do sistema de certificação deve aumentar, visto que a cada dia deve assegurar “soluções sócio ambientais reais” que promovam de fato conservação dos recursos naturais associados, benefícios sociais e desenvolvimento local, principalmente em se tratando da região Amazônica dada a sua importância em vários aspectos não só para o Brasil, mas para todo o mundo. A valorização da participação da sociedade na decisão das referidas certificações, somado a transparência e alto rigor técnico na análise são valores que colocam a certificação florestal FSC® como um instrumento com grande potencial de mudança, aumentando os impactos positivos nas operações certificadas além contribuir com a diminuição do risco reputacional às empresas e demais consumidores de produtos certificados.
___

* David Escaquete é engenheiro–florestal e coordenador de certificação florestal do Imaflora (Instituto de Manejo e Certificação Florestal e Agrícola – www.imaflora.org).



Nenhum comentário:

Postar um comentário

Compartilhe