quinta-feira, 7 de agosto de 2014

Quilombolas de Oriximiná abrem mercado internacional para o óleo de copaíba



Com apoio do Imaflora, cadeia produtiva do óleo usado na indústria de cosméticos e fármacos forma base para a economia da floresta

Houve um tempo na região de Oriximiná, na Calha Norte do rio Amazonas, no Oeste do Pará, em que o óleo de copaíba, um dos mais apreciados ingredientes pela indústria de aromas e cosméticos era apenas moeda de troca que as comunidades extrativistas quilombolas da região usavam para trocar por óleo diesel ou mantimentos. Quase sempre por meio de atravessadores, chamados regionalmente de regatões. Eles recolhiam o óleo e deixavam o combustível e a comida. Era assim a relação de comércio entre a comunidade e o “mundo lá fora”.

Isolados no interior da floresta, acessíveis apenas após longas horas de barco, desarticulados socialmente para o comércio, os quilombolas de Oriximiná viviam relações comerciais que os colocavam quase que na condição de escravos. Quando chegavam a vender o precioso óleo, o preço era estipulado pelo comprador, que pagava o que queria. Sempre menos do que valia o óleo. Nada justo, portanto. O jovem da comunidade crescia e a última coisa que pensava era em seguir extraindo óleo, como faziam seus pais, avós...

Mas há pouco mais de um ano essa situação começou a mudar. Com o apoio de algumas organizações que têm como objetivo ajudar a conservar as florestas nativas da região, os quilombolas começaram a se organizar para comercialização coletiva. Existia uma cooperativa, mas estava desarticulada  e que nunca havia trabalhado com comercialização de óleos.

Foi preciso retomar o trabalho, organizar a produção. “Nem todos acreditaram. Mesmo assim fomos adiante”, lembra o biólogo Léo Ferreira, ligado ao projeto Florestas de Valor, do IMAFLORA – Instituto de Manejo e Certificação Florestal e Agrícola, localizado em Piracicaba (SP). Segundo Ferreira, a meta da era fortalecer o extrativismo e fazer a conexão com o mercado. Mas em novas bases.

Na floresta, os extrativistas funcionam como fiscais da natureza. Como têm uma relação secular com a mata e dependem dela para viver, eles expulsam grileiros, madeireiros e garimpeiros ilegais. Eles também detém formas tradicionais de explorar os recursos da floresta sem destruir a mata. Isso faz deles importantes agentes na tarefa de manter a floresta em pé. No caso dos quilombolas parte de suas terras são reconhecidas oficialmente e o uso é um direito de que eles podem dispor. Com toda a riqueza natural ao redor e o conhecimento para usar de modo sustentável, os quilombolas de Oriximiná precisavam apenas de mecanismos que os remunerassem melhor.

“Em 2012, começamos a discutir com eles os princípios de uma comercialização ética. Fomos ouvi-los para saber o que eles consideravam justo e essencial numa relação de comércio”, lembra o especialista do IMAFLORA. “Começamos nosso exercício com a castanha-do-Brasil, que é abundante na região, e depois seguimos com o óleo de copaíba, cuja extração eles conhecem há várias gerações”.

Os quilombolas têm formas tradicionais de extrair a copaíba, conhecem as áreas na palma da mão e precisavam apenas de orientações sobre como manejar e garantir uma produção de qualidade. Quando essa parte do trabalho estava de pé, foi a hora de bater à porta das indústrias.

E foram várias as portas. Até que uma delas se abriu. Uma empresa suíça ligada ao ramo da perfumaria e disposta a suavizar sua pegada ecológica foi a escolha mais acertada. A empresa Firmenich, uma das maiores do mundo no mercado de fragrâncias e sabores aceitou o desafio de se embrenhar na Amazônia e ir discutir com os quilombolas um acordo de compra e venda de copaíba.

Foi uma experiência nova para ambos os lados. O executivo da empresa, sentado sob as árvores da comunidade, ouvindo dos quilombolas o que eles achavam justo para entregar o óleo. A empresa explicava o que era importante para ela: qualidade, regularidade na entrega e a certeza de estar contribuindo para conservar a floresta.

“Com isso, nós temos controle da nossa cadeia produtiva, sabemos que a matéria prima que compramos está melhorando a vida da comunidade, mantendo de pé a floresta e garantindo nosso negócio. E o nosso cliente é informado sobre isso”,   destaca André Tabanez, gerente de Projetos da Firmenich.

Ele lembra que, ao trabalhar dentro dos critérios e exigências técnicas de uma empresa multinacional, a comunidade está sendo preparada para o mercado. “Hoje a comunidade pode negociar com qualquer grande empresa do mundo, pois sabe como negociar, coletar, armazenar e entregar o produto como exigem os grandes clientes. Isso faz parte do legado intangível que deixamos para eles”.

No primeiro ano de vigência do acordo, somente as comunidades ligadas ao projeto Florestas de Valor conseguiram entregar 2, 5 mil litros de óleo de copaíba para a empresa. Tudo coletado no sistema coletivo, dentro da estrutura desenhada com a ajuda dos técnicos. Um sistema de amostragem registra a procedência de cada porção de óleo, de modo a garantir a qualidade e corrigir possíveis contaminações.


Com isso, o preço do litro do óleo de copaíba saltou cerca de 90% a mais que o mercado local costumava pagar. “Hoje até os atravessadores que ainda atuam na região têm de adequar ao novo preço”, comemora Léo. “E a indústria está aberta a receber mais e mais óleo vindo da floresta”, anima-se.

O desafio do projeto, segundo ele, é identificar novas áreas de extração do óleo de copaíba, bem como novos produtos e mais ainda: levar a tecnologia do manejo e os protocolos de comercialização ética para outras comunidades na Calha Norte, que provavelmente neste momento estejam trocando copaíba por combustível.

Trama de apoios


O IMAFLORA atua na região desde 2006, Durante esse período contou com diferentes fontes de recurso para viabilizar as ações junto as comunidades. Desde 2013, o projeto conta com patrocínio da Petrobras e participa do Programa Petrobras Socioambiental, um dos instrumentos da política de responsabilidade social da companhia. “Tivemos de fazer um tecido interinstitucional para viabilizar o projeto e os resultados devem ser creditados a todos os apoiadores. E esta é uma lição que aprendemos: somente unindo as forças é que poderemos manter a floresta em pé”.



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