terça-feira, 1 de setembro de 2015

A lição de casa do Brasil antes de fechar as malas para Paris




Os líderes mundiais têm perto de um mês e meio para colocarem as cartas na mesa. No dia primeiro de outubro, acaba o prazo para que os países que fazem parte da Convenção do Clima da Organização das Nações Unidas mostrem o jogo e indiquem onde e como colocarão seus esforços para reduzir as emissões dos gases que levam ao aquecimento global.

O que é possível esperar do encontro em Paris, que acontecerá em dezembro, a COP 21, e como o Brasil se insere nesse contexto? Marina Piatto, engenheira agrônoma e coordenadora da Iniciativa de Clima e Agricultura do IMAFLORA, tem acompanhado de perto esse debate, especialmente no que se refere às emissões na agropecuária brasileira, seu foco de estudo. Ela dá a boa notícia: a nossa agropecuária pode ser uma grande aliada no combate às mudanças climáticas, pelo potencial de reduzir em 50% sua cota de emissões até 2030. E mais: a contribuição do Brasil para o compito geral das emissões pode ser muito relevante e uma proposta ousada do governo teria apoio de organizações da sociedade civil.

Você participou do estudo feito pelo Observatório do Clima que propõe cortes nas emissões de gases de efeito estufa em vários setores da economia. Qual a contribuição que o Brasil pode dar? E o impacto dela no resultado global, seria significativo?

 A contribuição é grande e o impacto também. A proposta do Observatório é ousada, mas inteiramente possível. O estudo mostra que é viável reduzir as emissões atuais em 35%, até 2030, com cortes em áreas chave. Falamos em diversas providências simultâneas, como aumentar as fontes de energia limpa e renovável, produzidas pelo sol e pelo vento e, ao mesmo tempo, usar a eletricidade nos transportes, retomar o álcool como combustível, aumentar a mistura de biodiesel em 20% no transporte rodoviário, por exemplo. A proposta que está detalhada por setores pode ser consultada no site, mas resumindo, envolve um projeto de desenvolvimento para o País seguindo a tendência que já está aí, a de baixa emissão de carbono. A contribuição brasileira seria sim, bastante efetiva, porque estamos entre os dez maiores emissores de CO2 do mundo.

E quanto à agropecuária, qual é a proposta?

A ideia principal é que o setor passe de emissor a sequestrador de carbono, a partir do uso das pastagens degradadas para expansão da agropecuária. São 60 milhões de hectares que podem ser utilizados. Outro ponto importante é a utilização de práticas agrícolas mais eficientes e produtivas como integrar a floresta, a lavoura e a pecuária, diminuir o uso dos fertilizantes com nitrogênio, a ampliação do sistema de plantio direto na palha e a intensificação moderada da pecuária de corte.

E de quanto seria a redução das emissões dos gases que provocam efeito estufa?

Pelos nossos cálculos, as emissões atuais poderão ser reduzidas em 50%, até 2030 e ainda com aumento de produção. Nessa conta sobra espaço para os setores energéticos e industriais crescerem e atenderem à demanda brasileira. E sem necessidade de abrir novas áreas para pastagens, apenas usando de forma racional os recursos que temos hoje evitando assim novos desmatamentos.

Você analisou 43 anos das emissões brasileiras na agropecuária, até 2013. Para onde as emissões estão caminhando?

Claramente para a Amazônia. E isso é muito grave. Fica claro o avanço da fronteira agrícola, que estava no cerrado, em direção aos estados do norte, invadindo a Amazônia. Estados como Rondônia, Pará, Amazonas, que não apareciam como emissores deste setor na última década ganham importância. Existem várias fazendas que já estão usando as práticas de baixas emissões recomendadas, mas o problema é que ainda são poucas, ainda não ganhou a escala que seria desejável, mas já existe um movimento, já está acontecendo.

Se as práticas são conhecidas, já começam a ser usadas, se o crédito não é um problema como você detalha em parte do estudo recentemente publicado, é possível saber qual é o gargalo?

Acho que um deles, bem importante, é a dificuldade de acesso do produtor às novas tecnologias. Ele conhece a prática, quer adotá-la, mas não sabe como aplicá-la em sua propriedade, não tem um técnico para orientá-lo em uma prática nova. A maior carência é essa, a extensão rural, é fazer essa tecnologia chegar ao campo.

Isso vale para todos os tamanhos de produtor?

Para a maioria deles, menos para os de grande porte, mas a dificuldade é grande para todos. É importante reforçar que não falta credito, os recursos para o Plano Safra são enormes, mas apenas uma  parcela muito pequena vai para o Plano ABC, que é voltado para o financiamento da agricultura com compromissos de baixas emissões.

Existem outros gargalos?

Existem gargalos relacionados a outros setores, mas que afetam a agropecuária como a falta de infraestrutura, problemas de logística para escoamento da produção, regularização fundiária e ambiental e incentivos financeiros de forma geral.

E quanto à COP21, os olhos do mundo continuarão voltados para os grandes emissores, como EUA e China?

Acho que sim. Não há a expectativa de que a soma das contribuições apresentadas no encontro sejam suficientes para o pacto global em torno da limitação em 2 graus do aquecimento global. Acho que serão levadas propostas conservadoras para serem negociadas depois. Vai ter uma discussão muito grande no pós Paris. Não é o caso do Brasil, mas na maior parte do mundo, o problema é provocado pelos derivados de petróleo, como gasolina e diesel que contribuem muito para o aquecimento global. Mudar isso, em um curto espaço de tempo, é um desafio. Mas o Brasil pode contribuir com boas notícias, sim. É possível reduzir nossas emissões sem comprometer o desenvolvimento econômico, isso é matemático. 



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