terça-feira, 29 de setembro de 2015

Experiências e vivências da equipe e conselho do Imaflora, uma literal imersão no Xingu



Membros da equipe e do conselho do Imaflora que participaram da canoada


Entre os dias 5 a 11 de setembro, parte da equipe e do conselho do Imaflora participou da Canoada bye bye Xingu, realizada pela parceria Aymïx - Associação Yudjá Miratu Xingu e Instituto Socioambiental - ISA. Para o Imaflora a atividade fez parte da celebração de seus 20 anos criando-se a oportunidade de promover a interação entre equipe e conselheiros em um ambiente estimulador e provocante.

Foram dois dias de preparação conduzida por especialistas na temática e lideranças indígenas e ribeirinhas, atingidos de alguma maneira pela obra, nos transmitindo informações sobre o contexto da região, status da obra, instruções sobre as canoas tradicionais e procedimentos de segurança, logística e apoios organizados ao longo percurso, além da bagagem a ser levada.
Nos 4 dias subsequentes tivemos como rumo remar os 110 Km descendo o rio, desde Altamira até o final da Terra Indígena Paquiçamba, no trecho conhecido como a Volta Grande do Xingu, sobre a orientação e cuidado de indígenas e ribeirinhos conhecedores daquele pedaço de rio como a palma da mão. O pano de fundo foram lugares incríveis onde pudemos conhecer seu povo, as maravilhas daquele pedaço de paraíso na terra entre cachoeiras e remansos, literalmente uma imersão no rio Xingu.  A felicidade daquelas pessoas de serem escolhidas para a canoada por nascerem e viverem ali, ficou muito evidente assim como a percepção da força que possuem em tentar de tudo para que o modo de vida não se esvaia junto com a água, a qual diminuirá em até 80% devido o desvio do rio para o lago principal.
E foi assim que 40 pessoas selecionadas de diferentes áreas de atuação, das quais 5 Conselheiros (Célia, Tasso, Zuzu, Ricardo e Rubens), 4 membros da equipe (Helga, Lisandro, Alexandre e Milton) e o atual secretário executivo do Imaflora (Mauricio), vivenciaram esses 4 dias sem internet, sem telefone, somente com um rádio para urgências, mas muita amizade, empolgação, deslumbramento, e uma imensa incerteza sobre onde tudo aquilo vai dar.
A intenção da viagem era mesmo a interação entre a equipe do Imaflora, entre a equipe e o conselho do Imaflora e a interação com os outros participantes selecionados. Foi uma ótima oportunidade para nos conhecermos melhor em conversas informais, estreitar os laços, participar das rodas de conversas de alto nível, desta forma abrindo nossos horizontes, fazendo desta uma experiência única em nossas vidas.
No decorrer do percurso as canoas faziam paradas estratégicas em praias da “terra” ou das ilhas, onde podíamos nos refrescar, alimentar, ouvir causos dos guias, descobrir histórias com os conselheiros, mas acima de tudo ir percebendo as alterações que estão consolidadas e as inúmeras outras que virão e ainda não se tem certeza do real impacto que causarão. Fizemos a transposição na barragem principal escoltados por guardas da força nacional, depois fomos recebidos como diplomatas pelas famílias da Ilha da Fazenda, onde parte dos guias puderam rever seus familiares. Paramos também em frente a Aldeia Miratu, dos índios Juruna, na TI Paquiçamba uma das mais atingidas por Belo Monte para conhecer as pessoas e familiares dos guias que nos orientavam como pais, e sermos brindamos com uma dança tradicional.

No último acampamento tivemos a maravilhosa experiência de pernoitar ao lado da Cachoeira Grande, uma das regiões únicas do Xingu. E, como quase que naturalmente, não poderia ter lugar melhor para uma roda de conversa sobre a diversidade socioambiental do Xingu e o seu futuro. Tivemos também a oportunidade de conhecer outras inúmeras cachoeiras, sendo a de Jeriquá uma das imagens marcantes de toda excursão.

Terminamos a nossa imersão voltando a “realidade”, tomando um choque ao conhecer o gigante canal que desviará as águas do rio Xingu ao lago principal (reservatório) de Belo Monte. A obra tem a magnitude do canal do Panamá em relação a quantidade de terra e pedras escavadas/retiradas, mas ainda assim insuficiente para calar a voz e o canto daqueles povos que tem muito a dizer e ensinar.
 “Em todos os meus anos de Imaflora, posso afirmar sem dúvidas que este momento foi único, onde apesar da agenda apertada de todos conseguimos reunir membros de peso do Conselho do Imaflora para uma campanha de uma semana, incluindo membros da equipe de diversas áreas, Presidente, Vice e Secretário Executivo do Imaflora, sem contato com Internet, agendas, e muitas vezes sem nenhuma comunicação. Isso só não foi mais grandioso que a causa que ora abraçamos, cada um na sua competência, e área de influência.” Milton Ferreira.

Veja também:

Vítimas de uma guerra amazônica - Expulsos por Belo Monte, Raimunda e João tornam-se refugiados em seu próprio país. Por Eliane Brum.

Belo Monte, a idade da pedra. – Por Ricardo Abramovay, 20/09/2015
IBAMA nega licença para encher o lago de Belo Monte – Valor Econômico, 22/09/2015.



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