sexta-feira, 19 de abril de 2013

O sentido de avaliar o impacto das organizações.

Artigo de LUÍS FERNANDO GUEDES PINTO, publicado no site da Folha de São Paulo.

Este é o tema da moda no mundo das ONGs e do empreendedorismo social. Cada dia mais é necessário medir e demonstrar o impacto da sua atuação. Virou uma unanimidade, que incomoda pela falta de reflexões mais profundas e um certo pragmatismo na sua implementação.

Obviamente é importante que as organizações sociais avaliem o impacto da sua ação e confirmarem se estão, de fato, contribuindo para as suas missões. Mas me parece que a moda está fazendo a questão do impacto virar um fim e ser mero instrumental para a captação de recursos ou para o convencimento de públicos específicos do valor do trabalho de uma organização.

A competição pelos escassos recursos da cooperação, da filantropia e da atual busca por parceiros empresariais está levando a demonstração do impacto para um caminho equivocado.

Em primeiro lugar, a avaliação de impacto deve ser um meio e o seu maior valor é para o uso interno de uma organização. Ela serve para nortear decisões estratégicas, rever projetos e ações e orientar a forma de intervenção das entidades. É importante para validar o que se faz ou apontar que novas formas de trabalho são necessárias.

Mais do que isto, a avaliação de impacto deve ser uma forma de sistematização institucional, reunindo os dados que demonstrem os resultados e conseqüentes transformações geradas pelo trabalho de uma organização.

Fundamentalmente, a avaliação de impacto deve ser uma forma de aprendizado, se tornando um motor da inovação. E a publicação desses impactos, para prestar as devidas contas a financiadores, públicos dos projetos e sociedade em geral, passam a ser um subproduto desse processo interno.

Além da separação entre meio e fim, é importante discutir que a avaliação de impacto tem induzido a um equívoco a respeito do papel das ONGs e dos negócios sociais. A atual abordagem tenta simplificar algo muito complexo, o que não funciona.

A sociedade civil organizada tem o papel de contribuir para fomentar mudanças de interesse público, mas não tem a responsabilidade de resolver os problemas isoladamente.

Portanto, nenhuma organização pode ser cobrada ou mesmo se mostrar como responsável por acabar com o analfabetismo, a malária ou o desmatamento.

Todavia, os indicadores sugeridos para a avaliação de impactos, oriundos das cartilhas das multilaterais, sugerem que se relate impacto nestes moldes ou que se demonstre que a ação de determinada organização resultou no fim da fome ou na salvação das baleias.

Que bom seria se fosse tão simples. A intervenção da sociedade civil cria novos métodos, propõe soluções inovadoras, revoluciona conceitos, cria referências de formas de se fazer. É um grande mosaico, mas não resolve questões maiores sozinha.

Por isso a influência em políticas públicas é parte fundamental para uma influência em escala das organizações. E, curiosamente, esta é a parte mais difícil para se medir o impacto.

E, como é complicado medir e demonstrar o impacto desta ação, criou-se um efeito colateral perverso, de pouco se financiar a incidência em políticas públicas. Muitos financiadores e parceiros querem números simples e objetivos que mostrem a solução de um problema. E a dimensão de quantidade tende a se sobrepor à de qualidade, que é um dos grandes diferenciais do trabalho social.

Desta forma, a avaliação pragmática de impacto fica como o final de um ciclo, que tem enfraquecido o desenvolvimento institucional, fortalecido o trabalho de projetos e de prestação de serviços da sociedade civil e inibindo uma estratégia de transformações de longo prazo.

Logo, a avaliação de impacto é uma ferramenta muito importante para o desenvolvimento e a atuação da sociedade civil, mas deve ser usada para o fortalecimento institucional, gerar conhecimento e provocar inovação, sempre a serviço da missão e do interesse público de quem a realiza.

E precisa ser feita de maneira criativa, com a combinação de métodos e indicadores que façam sentido para o tipo de intervenção da sociedade civil.
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LUÍS FERNANDO GUEDES PINTO, 41, engenheiro agrônomo e doutor em agronomia pela Esalq-USP, é gerente de certificação do Imaflora e integrante da Rede Folha de Empreendedores Socioambientais.

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