segunda-feira, 10 de março de 2014

As duas Marias do cacau

O sorriso é generoso, largo.  Vem acompanhado da mão estendida e do nome completo, ao se apresentar:

- Muito prazer, Maria Bentes Pereira.


Enquanto o marido, seu Décio, 73 anos, conversa com colegas sobre os tratos na lavoura do cacau, ela conta sobre seu dia a dia, desde que se mudou, há 12 anos, para a chácara Nova Vida, vila constituída, em sua maioria, por assentados pelo INCRA, no município de São Félix do Xingu, no sul do Pará.

“Olha as telhas”, ela aponta com orgulho, para a cobertura de cerâmica. “Quando é assim, é de assentamento, quando é de madeira, não é”. A lógica é simples, como tudo na vida dessa mulher, de 75 anos, oito filhos, dos quais 2 moram com ela, mais as noras e a netinha. 

Dona Maria é uma camponesa típica, que dá suporte à família para que possa tocar a pequena propriedade, de onde se avistam fragmentos da floresta tropical e de onde sai o sustento de todos. É dela a responsabilidade de cuidar da horta, com um pouco de quiabo, jiló, couve; das ervas medicinais, como a cidreira, e das pimentas. Vermelhas, ardidas e aromáticas. 


Ás 6h30 da manhã, ela prepara a primeira, das três panelas de arroz que fará ao longo do dia. Será servida no café da manhã, com um pedaço de carne, acrescida de um dos legumes que planta. Parte da refeição será acondicionada em uma vasilha que seu Décio vai levar para o ajudante na colheita do cacau. 

Mas na roça, ela não vai. “Não dá tempo”, explica, sem, por um minuto, tirar o sorriso dos lábios. 

Ela continua a falar sobre a sua parte naquele minifúndio, enquanto pede ajuda para bater a bacaba. É uma frutinha preta, de casca grossa, da palmeira nativa da região amazônica, que fica de molho na água quente antes de ser pilada. Depois vira uma espécie de leite, que ainda vai receber muito açúcar. 

O dia da dona Maria vai terminar pouco antes do sol se por. Ela conta que vai esticar a rede e esperar o calor diminuir, enquanto conversa um pouco com o seu Décio, antes de “ligar a máquina”, como se referem ao gerador, para assistir a televisão. É uma LCD, que ganhou dos filhos. Tem outro aparelho pequeno no quarto, mas a energia elétrica, ainda não chegou até a Nova Vida. Se faz falta? Ou se gostaria que alguma coisa em sua vida fosse diferente? Ela parece nunca ter pensado na possibilidade, e responde que não, que gosta do lugar em que mora, da rotina e do trabalho que tem. 

Com a mesma alegria que demonstrou durante toda a conversa, ela sai para conferir se a batida de bacaba ficou pronta. E a sensação que deixa é de que nem a bebida consegue ser mais doce que essa Maria, a Maria Bentes Pereira. 


A Helena - A duas horas de muita poeira da Nova Vida, chega-se a vila Tancredo Neves. É lá que vive uma outra Maria, a Maria Helena Gomes, uma morena bonita, vaidosa, igualmente sorridente e de bem com a vida.  

Ela tem 23 anos e está casada com Edmilson, 28 anos, há seis. Conheceram-se quando ela chegou a São Félix do Xingu, aos seis anos de idade, vinda de Xinguara, também no Pará. E diferente da grande maioria das mulheres da região, participa ativamente tanto da lida na roça, quanto das decisões relativas ao negócio. Foi ela que orientou o referenciamento geográfico da propriedade do casal para a confecção do mapa para o registro no Cadastro Ambiental Rural.  

É Maria Helena também quem organiza os recibos e notas fiscais de todas as transações envolvendo os pequenos negócios da família: os mil pés de cacau, o congelamento de polpa de frutas e um pouco de pecuária leiteira. “Todas as decisões, nós tomamos juntos. A gente sempre troca opiniões”, ela explica.

Ela ainda preside a Associação das Mulheres Fabricantes de Polpas de Frutas, na qual coordena reuniões e tem a ajuda de um contador para realizar os encontros de contas, porque aí, já é demais. 

Assim como a sua meia xará, do sorriso largo, Maria Helena acorda às 6h30, quando o Edimilson já chega com o leite, recém tirado. Mas diferente dela, enquanto faz o café, descongela o pão de queijo, que preparou com antecedência e, quando terminam a primeira refeição do dia, vão juntos para o campo. Se for dia de cuidar do cacau, podem ficar por lá até o fim da tarde. 

Maria Helena faz um pouco de tudo: conhece bem as técnicas de plantio, da poda, da quebra e da coleta da fruta.  “Só não faço roçar”, ela conta. 


Se o trabalho for congelar as polpas de frutas, destinadas ao Programa Nacional da Alimentação Escolar, o casal vai junto para a cozinha. Com um pequeno maquinário, composto por batedeira, liquidificador, seladeira e freezer, passam o dia às voltas com pilhas de cajás, açaís e acerolas. Mas para ela, essa função é mais cansativa, e menos desafiadora do que a roça: “é que parece que o cacau sempre te surpreende. Cada vez que você aprende uma coisa, descobre outra nova, que ainda não conheceu”. 

Ás vezes, o dia é dedicado à arrumação da casa, e ela e Edmilson procuram dividir as tarefas: “a gente troca diárias”, ele brinca. 

 Nos fins de semana ou dias livres, eles passeiam, visitam parentes.  Já fizeram algumas viagens, para Minas Gerais e Bahia. Mas ela ainda quer conhecer mais, o Rio de Janeiro faz parte da lista de desejos. Estudar um pouco mais, talvez algo ligado ao meio ambiente, está no horizonte. 

Mas tem um tema que incomoda um pouco Maria Helena: a pressão pela maternidade. “Quero ter filhos, mas quando eu achar que é o momento. Antes, quero trabalhar muito, ampliar aqui, ter uma casa grande e confortável. Quero aproveitar que sou jovem para guardar dinheiro, ter uma reserva pro futuro e poder curtir um pouco a vida”. 

E nesse ponto, o comportamento da jovem de Xinguara é tão universal quanto o de tantas outras, em qualquer outro ponto do ocidente, que optou por investir na carreira ou no próprio negócio, antes de ampliar a família. E é assim, entre sonhos e metas para atingi-los, que senta para ver a novela, e as paisagens do Leblon, que, um dia, ela vai conhecer. E disso, ninguém duvida.
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*Por Fátima Nunes, assessora de imprensa do Imaflora (Instituto de Manejo e Certificação Florestal e Agrícola), uma Organização Não Governamental, sem fins lucrativos, que trabalha para promover a conservação e o uso sustentável dos recursos naturais e para gerar benefícios sociais nos setores florestal e agropecuário. O Instituto atua em São Félix do Xingu (PA), promovendo oficinas que auxiliam os agricultores no planejamento de suas propriedades, melhoria da produtividade e qualidade do cacau produzido, bem como ações que visam à conservação dos recursos naturais e o bem estar da comunidade. Saiba mais em www.imaflora.org. 

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