segunda-feira, 5 de maio de 2014

Café especial: quem são as mulheres vencedoras do Cup of Excellence?



Paulo A. C. Kawasaki, para Revista BSCA

O ano de 2013 foi marcado por um fato inédito na história dos concursos de qualidade Cup of Excellence para cafés no mundo. Pela primeira vez na história, duas mulheres, e brasileiras, sagraram-se campeãs do certame, demonstrando que a inserção em todos os nichos de mercado é uma realidade e que a participação delas é, mais do que necessária, o aprimoramento dos serviços que se dispõem a realizar.

A história dos Concursos de QualidadeCup of Excellence teve início no Brasil, em 1999. Atualmente, o País possui duas versões: a Early Harvest, destinada exclusivamente a cafés produzidos por via úmida (cereja descascado e/ou despolpado), e a Late Harvest, que engloba os grãos naturais, colhidos e secos com casca. Os certames são realizados pela Associação Brasileira de Cafés Especiais (BSCA), em parceria com a Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (Apex-Brasil) e a Alliance for Coffee Excellence (ACE), com patrocínio do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (SEBRAE).

Uma vez que o trato com cafés especiais exige muitos cuidados e dedicação, a participação feminina no processo produtivo passou a se destacar — resultado das habilidades e da sensibilidade que as mulheres têm. Como forma de reconhecer e parabenizar as campeãs por seu trabalho, os organizadores dos concursos apresentarão, na sequência, um pequeno perfil de Marisa Coli Noronha, campeã do 14º Concurso de Qualidade Cafés do Brasil, Cup of Excellence - Early Harvest, e de Cínthia Dias Villela, vencedora do 3º Concurso de Qualidade Cafés do Brasil, Cup of Excellence - Late Harvest.

MARISA COLI NORONHA
Em 1995, a produtora herdou o Sítio São Francisco (parte do Sítio da Torre), situado em Carmo de Minas, região da Mantiqueira de Minas Gerais, de seus pais, os quais já produziam café, e decidiu continuar com a atividade, ampliando um pouco o cafezal. Pensando em algo que desse um retorno financeiro melhor, pois a cafeicultura de montanha possui custo elevado, ela considerou, como única saída, o investimento em cafés especiais. “Quando conheci o trabalho da BSCA, soube que havia feito a escolha certa, que estava no caminho correto”, recorda.

Ciente que o investimento em qualidade seria a melhor saída para agregar valor à sua produção, Marisa entende que essa opção também é um diferencial nos momentos de crise do setor, como o vivido entre o fim de 2012 e o começo deste ano. “Além disso, quando começamos a produzir café especial, descobrimos que é um caminho sem volta, pois o prazer que isso nos dá é gratificante, não apenas pelo lado financeiro, mas por tudo o que envolve”, explica.

A cafeicultora reconhece que o custo de produção dos cafés especiais é elevado, superior, inclusive, aos já altos gastos com a produção do grão convencional. Porém, informa que o mercado reconhece esse investimento. “Tem produtor que diz: quando o mercado está em alta, vende-se qualquer café por um bom preço, mas, quando o mercado entra em crise, não compensa fazer investimentos. Para esse tipo de pensamento, recomendo que, para ingressar no nicho dos especiais, o cafeicultor tenha a mente voltada para a produção dele, pois esse não é um mercado imediatista, e sim de médio e longo prazos”, conta.

Sobre a produção – Marisa cultiva o produto em nove hectares no Sítio São Francisco de Assis, que é uma das quatro partes da propriedade herdada dos pais. Em 2013, ela informa que colheu 500 sacas de 60 kg, sendo que 300 foram classificadas como especiais.

A produtora destaca a importância das certificações no mercado e anota que a tendência é continuar investindo. “Nossa propriedade é certificada pela Rainforest Alliance. E esse caminho é o que manteremos em nosso negócio, pois seguiremos investindo em qualidade e buscando mais certificações”, aponta. Marisa justifica essa postura com os valores recebidos por seus cafés. “Temos vendido nosso produto com notas de 80 a 85 pontos (escala de 0 a 100 do Cup of Excellence) entre R$ 500 e R$ 600 por saca. Já nosso café especial, com notas superiores a 90 pontos, foi negociado com o mercado japonês por R$ 1.400 a saca”, salienta, completando que comercializa com diversos países, por intermédio da parceria com a empresa Carmocoffees, mas também possui clientes no Brasil.

Sobre o Cup of Excellence – “Sagrar-se vencedora do principal concurso de qualidade destinado ao café cereja descascado ou despolpado é uma sensação inexplicável”. Assim se sente Marisa ao recordar o feito. “Em um país que, até o início do trabalho de promoção realizado pela BSCA e seus parceiros, era conhecido como produtor de quantidade e não de qualidade, é extremamente gratificante saber que fazemos parte de um nicho que vem mudando esse conceito”, comemora.

A cafeicultora também celebra o fato de cada vez mais as mulheres ocuparem seus merecidos lugares na comunidade e no mercado. “Nós, mulheres, ocupamos, a cada dia, espaço de destaque em vários setores, e, na cafeicultura, não é diferente. Ter me consagrado a primeira a ganhar o Cup of Excellence é extraordinário e só nos incentiva a continuar nessa caminhada dos cafés especiais”, conta.

Em 27 de novembro de 2013, o lote de 15 sacas de Marisa foi arrematado por US$ 45.830,40 (R$ 106.509,85 – dólar cotado a R$ 2,324, conforme fechamento do dia) pelo consórcio formado pelas empresas japonesas Maruyama CoffeeSugi Coffee Roasting e Adachi Coffee. Esse montante representou US$ 3.055,67 (R$ 7.101,37) pagos porcada saca e significou alta superior a 2.100% sobre o Contrato “C” da Bolsa de NY, principal plataforma mundial de comercialização do grão. “Mesmo sendo complicado criar expectativa em relação a preços, tivemos uma surpresa muito boa com o valor que nosso café atingiu, pois foi além do que esperávamos. Estamos em festa até hoje”, exclama.

Para o futuro, Marisa acredita que vencer o concurso e ter seu café especial bastante disputado no leilão abrirá novas portas. Pensando nisso, ela comenta que pretende aumentar a produção de cafés especiais e, para isso, conta com o apoio da BSCA. “A Associação é de suma importância, pois nos incentivou a ingressar nesse nicho. E, com a realização do Cup of Excellence, temos o principal evento da cafeicultura, o qual nos aproxima dos compradores e nos expõe ao mundo cafeeiro”, enaltece.

Concluindo, a cafeicultora reitera a relevância da BSCA para os cafés especiais do Brasil e agradece a mais uma mulher de destaque no setor, a diretora-executiva Vanusia Nogueira. “Somos gratos a toda a equipe BSCA, em especial à Vanusia, que é uma importante incentivadora de todos os produtores, levando o nome do café especial brasileiro para todo o mundo”, salienta. Marisa finaliza recordando todos os envolvidos nessa história de sucesso. “Temos que agradecer também à cooperativa Cocarive, à Carmocoffees, à Emater-MG e a todos que nos apoiaram nessa caminhada, que são peças fundamentais para o nosso sucesso, e, principalmente, à Maruyama Coffee, à Sugi Coffee e à Adachi Coffee, compradores do nosso café especial”.

CÍNTHIA DIAS VILELA
Originária de uma família que lida com a cafeicultura há quatro gerações, Cínthia foi campeã do 3º Concurso de Qualidade Cafés do Brasil – Cup of Excellence Late Harvest, dedicado aos cafés naturais (colhidos e secos com casca), e está no inédito grupo de mulheres vencedoras desses concursos no mundo, ao lado de Marisa Coli Noronha, vencedora da competição destinada aos cafés cereja descascado e/ou despolpado.

A produtora e seus familiares cultivam o grão em uma área aproximada de 70 hectares na Fazenda Nossa Senhora Aparecida, situada em Carmo de Minas, na Região da Mantiqueira do Estado de Minas Gerais. Na safra 2013, a colheita rendeu em torno de 3.000 sacas, das quais cerca de 20% foram de cafés especiais. Os principais compradores de seu produto são do exterior, especialmente de Japão, Europa e Estados Unidos. Mas Cínthia vê com bons olhos o crescente movimento de algumas torrefadoras e cafeterias brasileiras que valorizam esse mercado. “Acreditamos e queremos trabalhar com parcerias para que o nicho de cafés especiais se desenvolva cada vez mais em nosso país”, destaca.

O começo – Como a família está na atividade há quatro gerações, a produtora nasceu nesse meio. Em 2008, a convite de seu pai, Edmo Junqueira Villela, passou a trabalhar na propriedade e notou o potencial existente para o cultivo de grãos especiais. O investimento em qualidade se deu frente ao encarecimento dos custos de produção, principalmente com mão de obra, e mediante a impossibilidade de mecanização em razão da declividade das regiões montanhosas. “Esse processo teve início com meus pais, desde a seleção das variedades plantadas – a propriedade possui uma boa área com Bourbon Amarelo –, e vem sendo ampliado por nós, filhos. O café especial traz um retorno financeiro melhor do que o commodity, mesmo sendo mais trabalhoso, além do que, no lado social, mantemos os empregos gerados pela colheita manual, a qual, no caso dos especiais, se traduz em colheita seletiva”, explica.

Qualidade – Cínthia relata que investir em qualidade é um diferencial que agrega valor ao café, em especial nesses momentos de crise, como o vivenciado atualmente, quando os custos de produção ultrapassam o valor pago pela saca colhida. “O café especial traz um retorno financeiro melhor, pois tem um nicho de clientes específicos, admiradores do bom café, que estão dispostos a pagar mais por essa qualidade”, comenta.
Outro ponto relevante, segundo ela, é o investimento nas certificações. Atualmente, a fazenda da família integra a Indicação de Procedência da Região da Serra da Mantiqueira de Minas Gerais. “Este é um selo de origem e qualidade dado apenas aos cafés produzidos em uma área específica e que seguem regras expressas de produção”, informa. A cafeicultora cita, ainda, que pretendem seguir investindo nas certificações devido à maior credibilidade que elas dão ao produto, permitindo que o consumidor tenha tranquilidade e confiança para adquiri-lo. “Além disso, para a obtenção de novas certificações, em geral, são exigidas melhorias na produção e/ou na propriedade, o que serve de incentivo à implantação de inovações que beneficiarão a qualidade do café”, completa.

Vale o investimento – Por mais que essa realidade venha mudando, muitos produtores de café são receosos quanto ao investimento em qualidade, alegando que os custos de produção são ainda mais elevados do que no cultivo do grão convencional. A esse respeito, Cínthia recorda que o cafeicultor, em geral, é tradicionalista e mudar algumas práticas de produção pode levar algum tempo. “Acredito, particularmente, que investir em cafés especiais é a melhor saída para os cafeicultores de montanha. Os custos de produção do nosso café são muito elevados, principalmente, por causa da mão de obra. São raros os casos em que é possível maquinar a colheita na região, portanto, quase todo o processo é manual. Por outro lado, temos a nosso favor a altitude. Poucas regiões conseguirão produzir os cafés com a nossa qualidade, justamente por causa das montanhas”, argumenta.

Em termos econômicos, ela comenta que os cafés especiais, sem dúvida, demandam mais investimentos, mas também cita que eles compensam. “Apesar de a saca ficar, em média, de 20% a 30% mais cara, o retorno financeiro conseguido com essa qualificação é considerável”, conclui.

Sobre o Cup of Excellence – A respeito do 3º Concurso de Qualidade Cafés do Brasil – Cup of Excellence Late Harvest, a cafeicultora menciona que a existência de um concurso desse porte gera boas expectativas, principalmente pela vitrine que é para os cafés brasileiros, valorizando o produto perante todo o mundo. “O fato de ter ficado entre os finalistas já foi muito gratificante. Apesar de termos um café de excelência, o café natural é um produto bem complexo e, por isso, gera algumas incertezas. Sempre temos esperança e vontade de ser o vencedor, mas sabíamos da dificuldade de conseguir esse feito e da alta qualidade dos ‘concorrentes’ na competição”, expõe.

De acordo com Cínthia, vencer o certame deu a sensação de dever cumprido. “Há muitos anos, meu pai, meu irmão e eu trabalhamos para termos essa qualidade nas lavouras. Essa vitória vem nos mostrar que escolhemos o caminho correto e que os esforços demandados até hoje foram recompensados. É um sonho que está se realizando”, comemora.

Ela também celebra a participação feminina na cafeicultura e faz questão de recordar que muito crê no trabalho conjunto entre homens e mulheres. “As mulheres têm muito a acrescentar em qualquer área de atuação. Esse é mais um caso que comprova isso. Felizmente, o potencial feminino, hoje, é bem visto e aproveitado em grande parte do mundo. A inserção da mulher no mercado de trabalho, certamente, deixou-o mais bonito, agradável e competente”, pontua.

Enquanto aguarda pelo leilão dos cafés vencedores do Cup of Excellence Late Harvest que ocorrerá, via internet, no dia 6 de março (esta matéria foi redigida antes do pregão), Cínthia acredita que ter vencido o certame e poder participar do pregão abrirá novas portas no mercado para seus cafés. “A oportunidade que o concurso nos traz é incalculável. A partir dele, muitos compradores – externos e internos – conhecerão nosso produto, que ficará visível para todo o mundo cafeeiro. Nossa qualidade será reconhecida pelos interessados e, certamente, isso trará muitos benefícios que serão convertidos em investimentos e melhorias da fazenda”, explica.

A produtora destaca, ainda, a importância de iniciativas como o Cup of Excellence, que serve de alicerce para o desenvolvimento de várias ações que se concretizaram desde sua implantação. “Os cafés finalistas têm uma grande oportunidade ao serem mostrados e ofertados a todo o mundo de uma maneira extremamente competente, coisa que só quem sabe e se dedica muito é capaz de fazer. Devemos muito à BSCA pela organização, à Apex-Brasil pelo apoio, ao SEBRAE pelos investimentos e à Alliance for Coffee Excellence pela realização”, menciona.

Cínthia finaliza recordando que vencer um concurso como esse gera uma enorme satisfação seguida de uma grande motivação em continuar e se aprofundar no universo dos cafés especiais. “Gostaria de dividir esse sentimento com cada colega cafeicultor, pois tivemos um ano (2013) muito difícil. Contudo, um provérbio português vem muito bem em momentos como este: ‘Não há bem que sempre dure nem mal que nunca acabe’”, conclui.

Ascom BSCA
CNC café

Fonte: Rede Peabirus



Nenhum comentário:

Postar um comentário

Compartilhe