quarta-feira, 17 de junho de 2015

Do bezerro ao bife. Até onde chega a rastreabilidade da carne no Brasil?


O consumidor brasileiro de maneira geral desconhece a carne que adquire e da qual se alimenta. Na verdade, não imagina o que está por trás da bancada do açougue ou da gôndola do supermercado, ou mesmo nas embalagens a vácuo da marca preferida. O desconhecimento pode ser explicado pela ausência de informação associada ao produto, e devido ao desinteresse do setor e do próprio consumidor em demandar, obter e transmitir as informações relevantes da cadeia produtiva.

 A agroindústria e o varejo de carne no Brasil estão hoje limitados a tratar os requisitos legais sanitários do processamento e comercialização, garantida pelos sistemas de inspeção federal - S.I.F. - ou inspeções estaduais e até municipais. Detalhes da cadeia de produção desde o nascimento do animal até a gôndola pode ser um risco à imagem das marcas e de todo o setor, que ao fornecer informações adicionais podem expor potenciais passivos ambientais e sociais da produção pecuária e de seu processamento.

 A fim de reverter esse cenário, a pecuária atravessa um momento no qual uma série de iniciativas vem sendo realizadas com o intuito de dar transparência e aumentar o padrão de sustentabilidade da cadeia produtiva. São acordos comerciais, compromissos empresariais estratégicos, parcerias bilaterais e também certificações. No entanto, estas ações em sua ampla maioria, além de incipientes, restringem-se a produtos e cadeias especiais, que buscam se diferenciar no mercado e, ainda, endereçadas a consumidores específicos.

 O fato é que a cadeia da carne está descoberta e ainda não apresentou mecanismos eficazes de transparência da origem completa da carne à sociedade civil. Ou seja, não é possível o consumidor sentir o verdadeiro sabor da carne no Brasil.

A adoção de Sistemas de Rastreabilidade é um elemento fundamental para dar transparência à cadeia produtiva. Sem rastreabilidade não há sustentabilidade. O termo rastreabilidade é definido pela FAO como a capacidade de seguir o movimento de um alimento através dos estágios específicos de produção, processamento e distribuição. Liga o produto final e com a sua origem em todas as etapas de processamento. Este mecanismo vem se desenvolvendo nos últimos anos de maneira bastante incisiva na cadeia de alimentos, onde sistemas informatizados são integrados a sistemas de gestão e possibilitam a identificação da origem das matérias primas até sua transformação em produtos final. Todavia, o estágio atual dos sistemas de rastreabilidade estabelecidos está limitado a conhecer somente o fornecedor direto da carne ao frigorífico, não alcançando todas as etapas da cadeia produtiva, isto é, do nascimento do bezerro aos cortes de carne nas gôndolas dos supermercados. O processo ocorre sem o devido aprofundamento na cadeia de suprimentos, pecando ao não proporcionar ao consumidor as informações sobre toda a história do produto finalizado.

Reverter essa realidade é um grande desafio e ao mesmo tempo uma oportunidade para o setor mostrar seu trabalho de eliminar da cadeia produtiva o desmatamento, o trabalho escravo e as altas emissões de gases de feito estufa. No entanto, as ferramentas que possibilitam a rastreabilidade completa da carne ainda não foram adotadas pela cadeia.

Progressos ocorreram junto aos maiores frigoríficos do Brasil, que assumiram o compromisso de não comprar mais carne de áreas desmatadas da Amazônia e de propriedades que estão na lista do trabalho análogo ao escravo. Também existem os sistemas de garantia de origem e certificação, que são focados na qualidade dos produtos e em critérios de responsabilidade social e ambiental. Em ambas as iniciativas os avanços em relação a identificação da origem do produto são extremamente valorosos, mas ainda com baixa capacidade de rastrear o produto desde o nascimento do bezerro.

As principais dificuldades operacionais em todas as iniciativas estão vinculadas ao rastreamento dos fornecedores indiretos (de cria e recria de bezerros), dos animais provenientes de leilões e da ação dos “atravessadores” de gado. Estes elos da cadeia geram lacunas de informação e são considerados como “vazamentos” e “lavagens” de animais. O vazamento ocorre quando o gado não é controlado em etapas específicas da cadeia produtiva, como por exemplo, quando um lote de animal é criado numa determinada fazenda, é vendido em leilão e depois segue para outra fazenda de engorda que irá comercializar o animal com o frigorífico. Como não existe um sistema de gestão das informações interligado, não se consegue estabelecer uma dinâmica de identificação da origem primária do animal no ato da aquisição pelo frigorífico. Ou seja, se a origem primária está em alguma lista de áreas embargadas e de trabalho escravo os frigoríficos não conseguem bloquear a compra.

Já a lavagem refere-se a um ato ilícito, que visa burlar as condições estabelecidas pelos frigoríficos, acordadas com a sociedade civil ou até com o Ministério Público. Isto pode ocorrer, por exemplo, quando uma fazenda listada como embargada ou processada por trabalho escravo “transfere” um lote de animais sem registros para uma fazenda “limpa”, ou ainda faz o uso dos documentos desta, para comercializar os animais para o frigorífico. Ou seja, a indústria não consegue identificar que a real origem do animal descumpre com os acordos assumidos.

Um efetivo e eficaz sistema de rastreabilidade da carne possibilitará ao setor fortalecer todos os elos da cadeia de produção e mostrar os avanços que têm ocorrido no campo. Acima de tudo, possibilitará saber o real tamanho das lacunas existentes e o quanto temos que trabalhar. Contudo, para que o sistema seja realmente efetivo é imprescindível uma melhor coordenação da cadeia produtiva.

Lisandro Inakake de Souza - Coordenador de Projetos e Certificação Agrícola - Imaflora.


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