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quarta-feira, 11 de setembro de 2019

A hora de cadeias éticas de suprimentos é agora

O apelo de ONGs líderes para que as empresas sigam a Accountability Framework (o Quadro de Responsabilização) para acabar com a destruição do ecossistema e violações dos direitos humanos na produção, comércio e financiamento de carne bovina, óleo de palma, polpa, madeira, soja e outras mercadorias.

Nos últimos anos, centenas de empresas se comprometeram a eliminar o desmatamento das cadeias de suprimentos de produtos até 2020 e a respeitar os direitos dos povos indígenas, comunidades locais e trabalhadores. Mas com apenas alguns meses até o prazo final, esses compromissos produziram resultados decepcionantes. Fazendas e plantações continuam a substituir florestas, pradarias e áreas úmidas, e os abusos dos direitos humanos continuam generalizados. Embora algumas empresas tenham feito progressos, a maioria está longe de atingir suas metas e muitas mal começaram a jornada. 

Não há tempo a perder se quisermos proteger o clima, a biodiversidade e os ecossistemas da Terra que sustentam nossos sistemas alimentares. No entanto, continuamos a perder florestas tropicais a uma taxa de 30 campos de futebol a cada minuto, inclusive na Amazônia, Bacia do Congo e no sudeste da Ásia. A produção de commodities é o maior impulsionador dessa destruição de florestas e outros ecossistemas. 

Como o último relatório do IPCC deixa claro, essa conversão de terras acelera a crise climática, levando à escassez de água, à degradação da terra e à menor segurança alimentar para a crescente população mundial. E é uma das principais razões pelas quais as espécies são extintas centenas de vezes a taxa natural. Somados a esses impactos, baixos salários, falta de proteção dos trabalhadores e apropriação ilegal de terras ameaçam os direitos e o bem-estar dos povos indígenas, comunidades locais e trabalhadores. 
Para evitar mais danos ao nosso planeta e a seus residentes, as empresas devem tomar medidas urgentes e eficazes para alcançar cadeias éticas de suprimentos que protejam florestas e outros ecossistemas naturais e respeitem totalmente os direitos humanos. 

As empresas pediram orientações claras e unificadas sobre como fazê-lo. O lançamento em junho de 2019 da Accountability Framework atende a essa solicitação. Os princípios e orientações da Framework fornecem um roteiro claro e prático para a implementação de cadeias éticas de suprimentos. Subjacente à Framework, está o consenso de 15 ONGs líderes - representando uma convergência única de perspectivas ambientais e sociais - bem como as contribuições de centenas de outras organizações, especialistas e empresas por meio de um processo consultivo de dois anos. O Framework complementa e ajuda a alinhar definições, padrões, e ferramentas de monitoramento para que as empresas possam seguir uma abordagem única e harmonizada para gerenciar e relatar seu progresso. 

Com a aproximação do prazo de 2020 e o comércio de commodities ainda gerando impactos inaceitáveis nos direitos humanos e ambientais, é hora de agir. Apelamos todas as empresas envolvidas na produção, comércio ou financiamento de produtos agrícolas e florestais a seguir a Accountability Framework para:

  • Estabelecer compromissos de cadeias éticas de suprimentos (ou atualizar compromissos existentes); 
  • Tomar medidas eficazes para lidar com a conversão de ecossistemas e violações de direitos humanos em toda a sua base de produção, cadeia de suprimentos e portfólio financeiro; 
  • Monitorar e relatar o progresso para fornecer informações transparentes às partes interessadas e orientar a melhoria contínua.

Como ONGs, defendemos essa Framework como nossa visão de consenso. Nós o oferecemos como uma ferramenta prática para ajudar as empresas a responder a essa chamada à ação e solicitamos que elas a usem para orientar sua jornada na cadeia ética de suprimentos. Juntos, podemos tornar as cadeias éticas de suprimentos o novo normal. 

Para começar, visite https://accountability-framework.org  

Atenciosamente, 

Os parceiros da iniciativa Accountability Framework





Dia do Cerrado é oportunidade para discutir uso sustentável da terra no bioma, que já perdeu 50% de sua cobertura vegetal

Imaflora participa de soluções para a restauração do Cerrado.

Na próxima quarta-feira, dia 11 de setembro, é comemorado o Dia do Cerrado. Porém, mais do que comemorar, é o momento de lançar luz para as ameaças pela qual o bioma passa e para soluções que buscam sua restauração e uso responsável. Segundo maior bioma do Brasil, ocupando 24% do território, nas últimas décadas o Cerrado tem sido a principal área de expansão agropecuária e foi o bioma que mais sofreu alterações, tendo perdido metade da sua cobertura vegetal original.

Coautor do trabalho “A expansão da agricultura em remanescentes de vegetação nativa do bioma cerrado”, o engenheiro agrônomo Lisandro Inakake, coordenador de projetos na área de Clima e Cadeias Agropecuárias do Imaflora (Instituto de Manejo e Certificação Florestal e Agrícola), afirma que os impactos para o bioma "são inúmeros e ainda há muito a ser mensurado e qualificado. As alterações climáticas são um ponto muito importante. O desmatamento no cerrado já atinge 50% do bioma e há sinais de escassez de água para uso humano e para a manutenção das atividades agropecuárias". Lisandro lembra que, das 12 bacias hidrográficas do Brasil, oito possuem nascentes importantes no cerrado e abastecem grandes centros. "A correlação entre a mudança do uso do solo e a disponibilidade dos recursos hídricos está bem clara. Sem falar nas perdas para a biodiversidade. Um terço da biodiversidade brasileira, sendo quase 50% de espécies endêmicas, estão no cerrado", diz Lisandro.

Especulação imobiliária e grilagem de terras

Lisandro também destaca os interesses da especulação imobiliária na região. "É importante ressaltar que existem dois negócios nas fronteiras agrícolas: a atividade agropecuária e a imobiliária. No Matopiba (área entre os estados do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia) há grandes grupos, incluindo fundos de pensão e de investimentos estrangeiros, que adquiriram terras na região. São casos em que não existe necessariamente a intenção de produzir e, sim, de investir com a perspectiva de valorização da terra". O pesquisador explica que o processo de especulação imobiliária pode estar associado à grilagem de terras. "Isso provocou e ainda provoca consequências negativas, como o uso irresponsável dos recursos naturais, a expulsão das populações tradicionais do território de ocupação, contaminação de rios com agrotóxicos e outros fatores derivados desses", elenca Lisandro.

Imaflora: soluções para a conservação e restauração do Cerrado

Quando a Nespresso decidiu implementar um programa de qualidade e sustentabilidade em sua cadeia de fornecedores, composta por 2000 fazendas localizadas na região do Cerrado e também no sul de Minas Gerais, a empresa solicitou a assessoria técnica do Imaflora. O Instituto desenvolveu uma ferramenta única para a iniciativa, adaptando para as condições brasileiras as normas adotadas em fornecedores da América Central, onde o programa já tinha sido implantado, seguindo orientações da Rainforest Alliance.

“Nosso trabalho consiste basicamente em fazer uma análise minuciosa de riscos socioambientais de todos os elos da cadeia de suprimentos no campo. Com esse mapeamento é possível traçar planos de ação de normas de sustentabilidade que melhorem a performance socioambiental dos produtos”, explica Eduardo Trevisan, gerente de projetos do Imaflora. Os técnicos agrônomos que orientam os processos produtivos nas fazendas recebem treinamento do Imaflora. “Em visitas frequentes às propriedades rurais, esses técnicos são os agentes de rastreamento de cada etapa, da pré à pós-colheita”, explica Trevisan.

Ao adotar a sustentabilidade na produção, melhorando a qualidade dos grãos, os fornecedores que participam do programa recebem da Nespresso um pagamento acima do preço padrão do mercado, o que facilita a fidelização dos produtores ao programa. “Com nossa experiência queremos incentivar as empresas a atingir suas metas de boas práticas e divulgar a origem e a performance socioambiental de seus produtos”, afirma Trevisan.

O Imaflora também atua no Consórcio Cerrado das Águas, uma plataforma que reúne diferentes atores (produtores, marcas de café, ONGs ambientais locais e globais), cujos esforços resultaram na fundação de uma organização independente para promover o desenvolvimento ambiental através da restauração, da agricultura inteligente e da gestão eficiente de recursos hídricos. Recentemente o Consórcio Cerrado das Águas lançou o Programa de Investimento no Produtor Consciente, que visa conservar a biodiversidade e o fornecimento de água na Região do Cerrado Mineiro. O projeto piloto está sendo implementado na bacia do Córrego Feio, localizada no município de Patrocínio, Minas Gerais, o principal produtor de café no Brasil. 

Junto com o Consórcio Cerrado das Águas, o Imaflora também produziu dois guias voltados para os produtores da região: o Guia deRestauração para o Cerrado Mineiro: Como Recuperar e Conservar sua Fauna e Flora; e Boas Práticas de Produção de Café: Serviços Ecossistêmicos e Serviços Ambientais.

Outra forma de atuação para a conservação e restauração do Cerrado é o controle das emissões de gases do efeito estufa em produções agrícolas. O Imaflora realizou o balanço das emissões de gases demonstrando das fazendas de café da cooperativa Monteccer, localizada na região do município de Monte Carmelo, em Minas Gerais, região do  Cerrado, referente à safra de 2017/2018. Segundo Ciniro Costa Júnior, coordenador de projetos da área de Clima e Cadeias Agropecuárias do Imaflora, o estudo apresentou as estimativas do balanço de emissões de gases de efeito estufa (GEE) pela produção de café em escala de fazenda de 34 propriedades da cooperativa.

As emissões de gases de efeito estufa das fazendas analisadas apresentaram uma média de -2.4 tCO2e por hectare por ano, ou -0.06 tCO2e por saca produzida. Isso significa um alto nível de sequestro de gases de efeito estufa. "Esse nível de intensidade de emissão por produto aponta que a Cooperativa Monteccer se posiciona entre os 5% mais eficientes sistemas de produção de café globalmente", aponta Ciniro. "O monitoramento do balanço de emissões de gases de efeito estufa é recomendado para fortalecer as evidências encontradas e identificar com maior precisão as correlações entre o manejo do café e oportunidades de mitigação de gases de efeito estufa, de forma a influenciar positivamente outros atores do setor à incorporar práticas sustentáveis, ser reconhecido pelo mercado devido ao papel desempenhado na prevenção das mudanças climáticas e no atendimento às demandas alimentares", explica.

Conforme explica Oséias Mendes da Costa, coordenador de projetos da área de Cadeias de Valor do Imaflora, os resultados se devem a diversas práticas, algumas já praticadas, outras recomendadas pelo Imaflora, como o uso de fertilizantes, o acompanhamento de um responsável técnico, análises de solo e folhas, juntamente com um conjunto de práticas sustentáveis na produção do café, envolvendo conservação do solo e de áreas vegetação nativa. "Estas práticas podem ser replicadas por outros produtores e cooperativas de café, impactando positivamente na conservação do cerrado", conclui.




quarta-feira, 14 de novembro de 2018

Série de webinars coloca a sustentabilidade em debate


O Imaflora (Instituto de Manejo e Certificação Florestal e Agrícola) lançou, esta semana, a série de webinars: “Sustentabilidade em Debate”, que discutirá temas como expansão da agricultura no Cerrado, soja no Matopiba (região que compreende municípios dos Estados do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia), Código Florestal e produção agropecuária e emissão de CO2.

As transmissões, ao vivo, acontecem sempre às 14h, por um link distribuído a usuários previamente inscritos no site: www.imaflora.org. Os vídeos das webinars também estarão disponíveis nesta playlist do Youtube, após suas sessões ao vivo.

Durante os encontros, haverá espaço para apresentações de estudos e debates em torno do assunto dos seminários virtuais. Para acompanhar a primeira webinar da série: “Sustentabilidade em Debate”, clique aqui.

Mais informações e inscrições para os próximos encontros: http://www.imaflora.org/eventos.php

Confira a programação da série de webinars

A soja no Matopiba: contradições, riscos e perspectivas
Quando: 13 de novembro, às 14h
Com: Heidi Buzato e Ricardo Camargo
Matopiba: O Cerrado se converte em agricultura
Quando: 21 de novembro, às 14h
Com: Felipe Barbirato

Código Florestal: quanto e quem falta?
Quando: 29 de novembro, às 14h
Com: Luis Fernando Guedes Pinto e Vinícius Guidotti

Como cumprir o Acordo de Paris e continuar líder na agropecuária?
Quando: 5 de dezembro, às 14h
Com: Ciniro Costa Jr.
Publicação a ser lançada.

terça-feira, 11 de setembro de 2018

Cerrado, Urgente!

Hoje, Dia Nacional do Cerrado, faz um ano que cerca de 50 organizações ambientalistas lançaram um manifesto alertando para a gravidade do desmatamento no bioma e perda de sua biodiversidade. A carta lembrava que a cada dois meses, no período de 2013 a 2015, o cerrado perdeu em vegetação nativa o equivalente a área da cidade de São Paulo. O fato ocorre em razão do avanço da agropecuária, principalmente, no território do Matopiba, a confluência dos estados do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia cujas áreas de cerrado correspondem a 90% do território, por onde a soja se estende e predomina. Em resposta foi criado um Grupo de Trabalho com a participação de ONGs, representantes da cadeia soja, produtores, governo e empresas do varejo com o objetivo de alcançar um pacto em torno da conservação do cerrado.

Coautor do trabalho “A expansão da agricultura em remanescentes de vegetação nativa do bioma cerrado”, com o economista e mestre em serviços ecossistêmicos Felipe Barbirato, o engenheiro agrônomo Lisandro Inakake, coordenador de projetos na área de Clima e Cadeias Agropecuárias do Imaflora, explica a complexidade da região. 

Radar - Um ano depois de lançado o manifesto, qual sua avaliação sobre a possibilidade de um acordo para o cerrado, já que a última informação sobre o bioma aponta para um crescimento de 9% do desmatamento em 2017 em relação ao ano anterior?

LI – É a única possibilidade com que trabalhamos. O primeiro passo foi a criação do Grupo de Trabalho do Cerrado, estabelecendo um espaço para o diálogo em prol da conservação do bioma. Estamos em um momento crucial da negociação para alcançar um acordo que atenda ao objetivo do Grupo de Trabalho  que é a “eliminação do desmatamento o mais breve possível, considerando aspectos ambientais, sociais e econômicos”. É um Grupo de Trabalho bastante  representativo, já nasce mais amplo do que o que negociou a moratória da soja para a Amazônia.

Radar – No entanto, o debate sobre o desmatamento na região é recente. Por quê?

LI –. Nas últimas décadas, a partir de 2000, mais ou menos, a gente percebe o avanço da agricultura sobre o cerrado, de forma muito intensa e o desmatamento atingiu níveis alarmantes, chamando a atenção da sociedade civil e do mercado internacional. Em minha opinião, enquanto os olhos do mundo se voltaram para a Amazônia, fez-se vista grossa para o cerrado. O fato é que surge no território um modelo de negócio estruturado, voltado para a exportação de commodities, não para a produção de alimentos. Atualmente, o cerrado tem 17 milhões de hectares de soja, dos quais cerca de 4 milhões estão no Matopiba e já responde por 10% produção mundial de grãos.

Radar – E quais são os impactos para o bioma?

LI – São inúmeros e ainda há muito a ser mensurado e qualificado. As alterações climáticas são  um  ponto muito importante. O desmatamento no cerrado já atinge 50% do bioma e há sinais de escassez de água para uso humano e para a manutenção do próprio agronegócio. Das 12 bacias hidrográficas do Brasil, oito possuem nascentes importantes no cerrado e abastecem grandes centros.  A correlação entre a mudança do uso do solo e a disponibilidade dos recursos hídricos está bem clara. Sem falar nas perdas para a biodiversidade. Um terço da biodiversidade brasileira, sendo quase 50% de espécies endêmicas, estão no bioma.

Radar - E quais os riscos sociais que podem ser apontados?

É importante ressaltar que existem dois negócios nas fronteiras agrícolas, a atividade agropecuária e a imobiliária.  No Matopiba há grandes grupos, incluindo fundos de pensão e de investimentos estrangeiros, que adquiriram terras na região. São casos em que não existe necessariamente a intenção de produzir e sim de investir com a perspectiva de valorização da terra. Muitas vezes, o processo de especulação imobiliária é intimamente associado à grilagem de terras. E isso  provocou e ainda  provoca consequências negativas, como o uso irresponsável dos recursos naturais, a expulsão das populações tradicionais do território de ocupação, contaminação de rios com agrotóxicos e outros fatores derivados desses, como a intoxicação de um rebanho bovino com a água contaminada, como retratado pelo documentário  “Geraizeiros” , do diretor Marcos Rogério Beltrão dos Santos.

Radar – Existe um prazo para o acordo no GT, qual expectativa nesse sentido?

LI - Dezembro é a data limite para se chegar a um acordo e estamos trabalhando intensamente nesse sentido.


Dia Nacional do Cerrado.

A nova edição do Sustentabilidade em Debate traz um estudo inédito sobre o avanço da agropecuária no MATOPIBA.

Lançamento

O estudo de Lisandro Inakake e Souza e Felipe Barbirato  mostra o avanço da agricultura sobre o cerrado e sugere que os esforços para conciliar as agendas do agronegócio e da conservação ambiental passam por uma ampla negociação com as cadeias agropecuárias que estão no bioma. 

Confira a íntegra aqui.


quinta-feira, 16 de agosto de 2018

Relatório mapeia em detalhes a cadeia produtiva da soja e contribui para dar mais transparência ao setor.

Dados do Anuário Trase 2018*, divulgados no Brasil, aumentam a compreensão das conexões entre a produção de soja e os riscos do desmatamento e mostra como produtores, empresas e mercados consumidores podem usar essa oportunidade para criar uma economia livre de desmatamento. Os dados apontam que a região do Matopiba (Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia) corre o maior risco de desmatamento devido ao avanço da soja para exportação.  Dados do Atlas Agropecuário, desenvolvido pelo Imaflora, Geolab/ESALQ (projeto Fapesp) e KTH (Suécia), estimam que entre 2001 e 2017, a soja expandiu em 310% apenas no Matopiba, sendo que 65% da expansão no Matopiba se fez diretamente sobre vegetação nativa, ao contrário do restante das áreas de Cerrado onde a soja expandiu sobretudo em pastagens (70%).

A maioria das empresas (80%) com o maior risco de desmatamento por tonelada em todo o Brasil obtêm volumes significativos de soja oriundos desta região. Somente no Cerrado estima-se que 60% da soja foi plantada em propriedades que haviam excedido os limites legais para conversão e portanto não estão em conformidade com o novo Código Florestal.

“A cadeia de produção de soja como um todo, leva consigo parte desta responsabilidade de desenvolver formas mais sustentáveis de produção. Trase apresenta os fluxos de origem e destino desta produção, destacando virtudes e mazelas e sinalizando quais os caminhos para que os múltiplos atores desta cadeia de produção possam, juntos, definir e ampliar formas de consumo mais responsáveis e de produção agrícola mais sustentáveis”, explica Arnaldo Carneiro Filho, um dos pesquisadores envolvidos no desenvolvimento e disseminação da plataforma Trase.

Cerca de 60% das exportações brasileiras de soja em 2016 foram para a China, levando consigo metade do risco de desmatamento associado às exportações de soja. Apesar de muitos países europeus importarem quantidades muito inferiores às da China, os dados do anuário mostram que eles geralmente se originam em áreas de maior risco, resultando em maior impactos por tonelada de soja importada.

Apenas seis grandes empresas (Bunge, Cargill, ADM, Louis Dreyfus, COFCO e Amaggi) foram responsáveis por 57% das exportações de soja do Brasil em 2016. Estas empresas realizam investimentos em infraestrutura (silos, armazéns, ferrovias e terminais portuários) que ajudam a explicar os padrões de fornecimento dos principais comercializadores e sustentam fortes conexões com regiões específicas de produção.  Os compradores de soja destas seis empresas podem estar associadas a pelo menos dois terços do risco total de desmatamento associado à expansão da soja observados na última década. Os dados da plataforma mostram que em um ano típico essas empresas são os únicos compradores para mais de 100 municípios - ressaltando o papel fundamental que desempenham na formação da sustentabilidade futura da soja.

“A desnecessária conversão de novas áreas de Cerrado como justificativa para a expansão da agricultura no Brasil não tem base econômica e se adequa aos compromissos de redução do desmatamento assumidos pelo país. Otimizar o uso do solo num sentido mais amplo, pode reduzir sobremaneira os impactos socioambientais oriundos da produção da soja. Considerando a expectativa da expansão da demanda chinesa, é vital promover novas iniciativas de sustentabilidade e parcerias nos países importadores, particularmente na China.”, sugere Arnaldo.

Projeções do governo sobre a produção de soja no Brasil indicam que cerca de 10 milhões de hectares de terra podem ser convertidos em soja na próxima década. Alguns governos, empresas e investidores assumiram compromissos ambiciosos para desenvolver cadeias de produção livres de desmatamento – algumas já em 2020.  Os dados da Trase mostram que, durante a última década, empresas de soja que operam no mercado brasileiro independente de terem assumido compromissos com o desmatamento zero, estiveram expostas a semelhantes riscos de desmatamento.

“Os compromissos pelo desmatamento zero oferecem uma oportunidade crítica para mudanças positivas. A análise contida neste Anuário permite que empresas, governos e sociedade civil tenham acesso a informações para monitorar o impacto local dos compromissos e ajudar a identificar maneiras para o seu fortalecimento”, avalia Simone Bauch, Diretora da América Latina, Global Canopy.

*Trase é uma plataforma de informações independente, imparcial e baseada em dados científicos, desenvolvida para apoiar a tomada de decisões na transição para uma economia livre do desmatamento. A plataforma agrupa e analisa conjuntos de informação sobre produção, comércio e movimentação aduaneira. Para mais informações, acesse plataforma Trase.