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quarta-feira, 11 de setembro de 2019

Dia do Cerrado é oportunidade para discutir uso sustentável da terra no bioma, que já perdeu 50% de sua cobertura vegetal

Imaflora participa de soluções para a restauração do Cerrado.

Na próxima quarta-feira, dia 11 de setembro, é comemorado o Dia do Cerrado. Porém, mais do que comemorar, é o momento de lançar luz para as ameaças pela qual o bioma passa e para soluções que buscam sua restauração e uso responsável. Segundo maior bioma do Brasil, ocupando 24% do território, nas últimas décadas o Cerrado tem sido a principal área de expansão agropecuária e foi o bioma que mais sofreu alterações, tendo perdido metade da sua cobertura vegetal original.

Coautor do trabalho “A expansão da agricultura em remanescentes de vegetação nativa do bioma cerrado”, o engenheiro agrônomo Lisandro Inakake, coordenador de projetos na área de Clima e Cadeias Agropecuárias do Imaflora (Instituto de Manejo e Certificação Florestal e Agrícola), afirma que os impactos para o bioma "são inúmeros e ainda há muito a ser mensurado e qualificado. As alterações climáticas são um ponto muito importante. O desmatamento no cerrado já atinge 50% do bioma e há sinais de escassez de água para uso humano e para a manutenção das atividades agropecuárias". Lisandro lembra que, das 12 bacias hidrográficas do Brasil, oito possuem nascentes importantes no cerrado e abastecem grandes centros. "A correlação entre a mudança do uso do solo e a disponibilidade dos recursos hídricos está bem clara. Sem falar nas perdas para a biodiversidade. Um terço da biodiversidade brasileira, sendo quase 50% de espécies endêmicas, estão no cerrado", diz Lisandro.

Especulação imobiliária e grilagem de terras

Lisandro também destaca os interesses da especulação imobiliária na região. "É importante ressaltar que existem dois negócios nas fronteiras agrícolas: a atividade agropecuária e a imobiliária. No Matopiba (área entre os estados do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia) há grandes grupos, incluindo fundos de pensão e de investimentos estrangeiros, que adquiriram terras na região. São casos em que não existe necessariamente a intenção de produzir e, sim, de investir com a perspectiva de valorização da terra". O pesquisador explica que o processo de especulação imobiliária pode estar associado à grilagem de terras. "Isso provocou e ainda provoca consequências negativas, como o uso irresponsável dos recursos naturais, a expulsão das populações tradicionais do território de ocupação, contaminação de rios com agrotóxicos e outros fatores derivados desses", elenca Lisandro.

Imaflora: soluções para a conservação e restauração do Cerrado

Quando a Nespresso decidiu implementar um programa de qualidade e sustentabilidade em sua cadeia de fornecedores, composta por 2000 fazendas localizadas na região do Cerrado e também no sul de Minas Gerais, a empresa solicitou a assessoria técnica do Imaflora. O Instituto desenvolveu uma ferramenta única para a iniciativa, adaptando para as condições brasileiras as normas adotadas em fornecedores da América Central, onde o programa já tinha sido implantado, seguindo orientações da Rainforest Alliance.

“Nosso trabalho consiste basicamente em fazer uma análise minuciosa de riscos socioambientais de todos os elos da cadeia de suprimentos no campo. Com esse mapeamento é possível traçar planos de ação de normas de sustentabilidade que melhorem a performance socioambiental dos produtos”, explica Eduardo Trevisan, gerente de projetos do Imaflora. Os técnicos agrônomos que orientam os processos produtivos nas fazendas recebem treinamento do Imaflora. “Em visitas frequentes às propriedades rurais, esses técnicos são os agentes de rastreamento de cada etapa, da pré à pós-colheita”, explica Trevisan.

Ao adotar a sustentabilidade na produção, melhorando a qualidade dos grãos, os fornecedores que participam do programa recebem da Nespresso um pagamento acima do preço padrão do mercado, o que facilita a fidelização dos produtores ao programa. “Com nossa experiência queremos incentivar as empresas a atingir suas metas de boas práticas e divulgar a origem e a performance socioambiental de seus produtos”, afirma Trevisan.

O Imaflora também atua no Consórcio Cerrado das Águas, uma plataforma que reúne diferentes atores (produtores, marcas de café, ONGs ambientais locais e globais), cujos esforços resultaram na fundação de uma organização independente para promover o desenvolvimento ambiental através da restauração, da agricultura inteligente e da gestão eficiente de recursos hídricos. Recentemente o Consórcio Cerrado das Águas lançou o Programa de Investimento no Produtor Consciente, que visa conservar a biodiversidade e o fornecimento de água na Região do Cerrado Mineiro. O projeto piloto está sendo implementado na bacia do Córrego Feio, localizada no município de Patrocínio, Minas Gerais, o principal produtor de café no Brasil. 

Junto com o Consórcio Cerrado das Águas, o Imaflora também produziu dois guias voltados para os produtores da região: o Guia deRestauração para o Cerrado Mineiro: Como Recuperar e Conservar sua Fauna e Flora; e Boas Práticas de Produção de Café: Serviços Ecossistêmicos e Serviços Ambientais.

Outra forma de atuação para a conservação e restauração do Cerrado é o controle das emissões de gases do efeito estufa em produções agrícolas. O Imaflora realizou o balanço das emissões de gases demonstrando das fazendas de café da cooperativa Monteccer, localizada na região do município de Monte Carmelo, em Minas Gerais, região do  Cerrado, referente à safra de 2017/2018. Segundo Ciniro Costa Júnior, coordenador de projetos da área de Clima e Cadeias Agropecuárias do Imaflora, o estudo apresentou as estimativas do balanço de emissões de gases de efeito estufa (GEE) pela produção de café em escala de fazenda de 34 propriedades da cooperativa.

As emissões de gases de efeito estufa das fazendas analisadas apresentaram uma média de -2.4 tCO2e por hectare por ano, ou -0.06 tCO2e por saca produzida. Isso significa um alto nível de sequestro de gases de efeito estufa. "Esse nível de intensidade de emissão por produto aponta que a Cooperativa Monteccer se posiciona entre os 5% mais eficientes sistemas de produção de café globalmente", aponta Ciniro. "O monitoramento do balanço de emissões de gases de efeito estufa é recomendado para fortalecer as evidências encontradas e identificar com maior precisão as correlações entre o manejo do café e oportunidades de mitigação de gases de efeito estufa, de forma a influenciar positivamente outros atores do setor à incorporar práticas sustentáveis, ser reconhecido pelo mercado devido ao papel desempenhado na prevenção das mudanças climáticas e no atendimento às demandas alimentares", explica.

Conforme explica Oséias Mendes da Costa, coordenador de projetos da área de Cadeias de Valor do Imaflora, os resultados se devem a diversas práticas, algumas já praticadas, outras recomendadas pelo Imaflora, como o uso de fertilizantes, o acompanhamento de um responsável técnico, análises de solo e folhas, juntamente com um conjunto de práticas sustentáveis na produção do café, envolvendo conservação do solo e de áreas vegetação nativa. "Estas práticas podem ser replicadas por outros produtores e cooperativas de café, impactando positivamente na conservação do cerrado", conclui.




quarta-feira, 14 de agosto de 2019

Imaflora concede primeiras certificações da Rainforest Alliance para negócios liderados por mulheres no mundo


Produtoras de café fazem parte de associação de agricultoras familiares da região da Serra da Mantiqueira, em Minas Gerais.

Um grupo de agricultoras da Amecafé Mantiqueira (Associação das Mulheres Empreendedoras do Café da Serra da Mantiqueira) acaba de receber a certificação Rainforest Alliance, concedida pelo Instituto de Manejo e Certificação Florestal e Agrícola (Imaflora). Essas foram as primeiras certificações do tipo concedidas para negócios liderados por mulheres no mundo. A Amecafé reúne 150 produtoras de café de 10 cidades da Serra da Mantiqueira, no sul de Minas Gerais. Com foco na produção de cafés especiais de alta qualidade, a associação foi criada há dois anos por pequenas agricultoras familiares que buscavam maior autonomia, visibilidade e acesso a mercados.

A certificação da Rainforest Alliance, realizada no Brasil pelo Imaflora, apoia o produtor na melhoria contínua da gestão da propriedade e aumento da eficiência e produtividade, além de ajudá-lo a conservar os recursos naturais e garantir os direitos e bem-estar dos trabalhadores rurais. "Elas são produtoras super engajadas em sustentabilidade, lideranças nas decisões das fazendas. Participam de treinamentos e capacitação, fazem baixo uso de agrotóxicos e possuem conhecimento sobre manejo de pragas e da lavoura", conta Tharic Galuchi, coordenador de Certificação Agrícola do Imaflora. As certificações da Amecafé foram financiadas em parte pelo próprio Imaflora, por meio do seu Fundo Social, que recebe 5% do valor de todos os contratos de certificação com empresas e tem como objetivo subsidiar a certificação de pequenos produtores e apoiar projetos comunitários.

Para facilitar e agilizar a obtenção da certificação, a Amecafé dividiu as associadas em pequenos grupos. A tática deu certo e o processo demorou apenas três meses. Nesta primeira fase, foram certificadas 17 produtoras, que respondem por 7 mil sacas de café por ano (de um total de 30 mil). A maior parte da produção, principalmente os cafés especiais, é exportada. A expectativa é de que, até o final de 2020, todas as 150 produtoras da Amecafé sejam certificadas. "Começamos pela certificação mais difícil, a mais exigente em matéria de meio ambiente e na questão social", ressalta Iraci de Fátima Inácio Carvalho, diretora da Amecafé.

Por ser o primeiro grupo de mulheres com certificação Rainforest Alliance do mundo, Iraci acredita que ganharão visibilidade e poderão agregar valor aos cafés certificados. Em um mercado ainda dominado pelos homens, Iraci espera que a certificação possa ajudar a mudar um pouco esse cenário: "Nossa associação é um exemplo, muitas produtoras se espelham no grupo da Amecafé e agora vão ver que não é impossível de conseguir a certificação".




sexta-feira, 9 de agosto de 2019

Lançado Programa de Investimento no Produtor Consciente, voltado para a mitigação dos impactos da mudança climática no Cerrado Mineiro


Marcas globais de café, organizações ambientais e sociedade civil endossam o programa inovador de investimento liderado pelo Consórcio Cerrado das Águas.

Patrocínio, Minas Gerais – Começará este mês um programa inovador, que visa preservar a biodiversidade e o fornecimento de água na Região do Cerrado Mineiro, responsável por 12% da produção nacional de café.

A iniciativa é promovida pelo Consórcio Cerrado das Águas, uma plataforma que reúne diferentes atores (produtores, marcas de café, ONGs ambientais locais e globais), cujos esforços resultaram na fundação de uma organização independente para promover o desenvolvimento ambiental através da restauração, da agricultura inteligente e da gestão eficiente de recursos hídricos.

Com apoio da União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN) e da Nespresso, Nestlé, Lavazza, Cooperativa Expocaccer e Imaflora – Instituto de Manejo e Certificação Florestal e Agrícola se uniram para firmar um compromisso de cinco anos para a criação e apoio técnico ao Programa de Investimento no Produtor Consciente. O programa reunirá frentes de trabalho que visam melhorar a oferta e o fornecimento de serviços ecossistêmicos (como saúde da água, solo, estoque de carbono, entre outros), a fim de alcançar a resiliência climática de uma paisagem ou território.

O projeto piloto será implementado na bacia do Córrego Feio, localizada no município de Patrocínio, Minas Gerais. O Consórcio planeja investir na proteção dos ecossistemas naturais em aproximadamente 124 propriedades ao longo da bacia, que apresenta em grave escassez e conflito hídrico. “O novo programa de investimentos fornecerá incentivos financeiros e expertise para que todos os proprietários de terras tornem seus ativos ambientais cada vez mais saudáveis e produtivos nessa importante bacia hidrográfica”, disse Giulia Carbone, vice-diretora do Programa de Negócios e Biodiversidade da UICN.  “Os proprietários serão literalmente e na prática os gerentes dos ativos ambientais, e suas decisões para proteger os serviços ecossistêmicos chave – como florestas e rios – contribuirão diretamente à recuperação da paisagem do Cerrado.”

Este ano, as empresas se comprometeram a investir US$100 mil. Além disso, o Consórcio já recebeu um subsídio de US$ 400 mil do Fundo de Parcerias para Ecossistemas Críticos (CEPF). Esse foi o maior subsídio já concedido pelo CEPF, que conta com exigente doadores como a Agência Francesa de Desenvolvimento (AFD), União Européia, Fundo Mundial para o Ambiente (GEF), Governo do Japão e Banco Mundial.

“O Consórcio Cerrado das Águas demonstrou porque as empresas precisam adotar uma abordagem de longo prazo e contribuir para a paisagem mais ampla onde trabalhamos.  Da mesma forma, o setor público tem que se comprometer a assegurar que essas soluções inovadoras sejam aumentadas e capazes de entregar benefícios duradouros à população da região.” Segundo Mario Cerruti, Diretor Global de Relações Institucionais e Sustentabilidade na Lavazza.

A Federação dos Cafeicultores do Cerrado, entidade que protege, promove e controla a Denominação de Origem Região do Cerrado Mineiro, local de atuação do Consórcio Cerrado das Águas, apoiou a captação do recurso junto do CEPF e atuou como Secretaria Executiva do Consórcio nos últimos quatro anos. “Os produtores da Região do Cerrado Mineiro são comprometidos com a sustentabilidade do território em que estão inseridos. E o Consórcio Cerrado das Águas é um projeto que veio ao encontro desse comprometimento e da consciência ambiental que sempre esteve presente no Cerrado Mineiro”, explicou Juliano Tarabal, Superintendente da Federação dos Cafeicultores do Cerrado.

 “Promover a recuperação e conservação dos serviços ecossistêmicos como um seguro contra a mudança climática nessa paisagem importante é um objetivo chave do programa de investimentos”, disse Guilherme Amado, gerente da Nespresso no Brasil.  “No local piloto de Patrocínio, onde todo o município e os cafeicultores dependem dessa única bacia, os produtores também terão uma visão clara da degradação dos serviços ecossistêmicos em suas propriedades, e receberão conselhos profissionais e financiamentos para torná-las resilientes ao clima.”

Todos esses esforços são críticos para recuperar a paisagem e suas cadeias de valores. O programa está estabelecendo novos paradigmas para importantes frentes de conservação como a restauração de vegetação nativa. Peggy Poncelet, Diretora do CEPF, conta que “o objetivo é alcançar uma restauração de vegetação nativa 100% livre de químicos, a um custo 85% mais baixo do que o custo praticado atualmente no Cerrado, que é uma área global crítica para a perda de biodiversidade.  As parcerias com os laboratórios agroecológicos locais, com a EMBRAPA e a EMATER ajudarão a testar novas tecnologias para reduzir a incidência das ervas daninhas e pragas.”

Nota aos Editores:

Sobre o Consórcio de Águas do Cerrado:

Criado em 2015, o Consórcio Águas do Cerrado, organização legalmente independente, é uma plataforma que agrega  empresas, organizações da sociedade civil e representantes do governo com o objetivo de promover o desenvolvimento ambiental por meio da restauração da paisagem e manutenção dos serviços ecossistêmicos do Cerrado brasileiro. São membros do Consórcio Águas do Cerrado: CerVivo, Conservação Internacional, Critical Ecosystem Partnership Fund (CEPF), Cooxupé, Expocaccer, Federação dos Cafeicultores do Cerrado , Imaflora, UICN, Lavazza, Nespresso, Nestlé e Departamento de Água e Esgoto de Patrocínio (DAEPA)

Para mais informações, contatar:

Ana Lima, Secretária Executiva do Consórcio Cerrado das Águas, tel: +55 11 999010882; email: ana@olab.com.br

Renata Bennet, Oficial de Comunicação da UICN no Brasil, tel.: +55 61 99819 3905; e-mail: renata.bennet@iucn.org


sexta-feira, 6 de julho de 2018

Consórcio Cerrado das Águas: parcerias para promover a sustentabilidade da água no Cerrado Mineiro

por Camilla Nieman [1].  

Patrocínio, Minas Gerais: município brasileiro conhecido principalmente por sua extensa produção de café de qualidade e caracterizado por muitos córregos e rios, ricos em minerais. O bioma local é o de uma savana, com uma flora e fauna impressionantes. Essa realidade idílica, no entanto, pode desaparecer em um futuro próximo: um grave caso de diminuição da água está ameaçando esta região, causando uma rápida deterioração de suas condições de qualidade.

É necessária uma ação coletiva para preservar a água e o ecossistema da região, e a Nespresso foi uma das primeiras a perceber isso. Considerando a importância da região para a multinacional, isso não é surpreendente: o Brasil é o maior fornecedor de grãos de café de qualidade para a Nespresso e, no Brasil, Minas Gerais (e o município de Patrocínio, em particular) é o principal fornecedor. Grande parte do conteúdo das célebres cápsulas coloridas de café, disponíveis mundialmente, derivam desses grãos de café.

Em 2013, um seleto grupo de organizações como Nespresso, IUCN (União Internacional para a Conservação da Natureza), IMAFLORA, Ipê, Cooxupé, CerVivo, Unicerp, UTZ e Daepa decidiram unir forças e, em 2015, lançaram oficialmente Consórcio Cerrado das Águas (Consórcio Águas do Cerrado). Como a situação hídrica precária não afeta apenas os futuros apreciadores de café em todo o mundo, mas principalmente a flora, a fauna e os habitantes locais da região, essa iniciativa de sustentabilidade tem uma abordagem diferente em comparação com outras de seu tipo: inclui representantes de diversos setores (sociedade civil, setor público e setor privado) e parceiros estratégicos locais cuja soma de capacidades, talentos, recursos e força politica visa melhorar a qualidade e a quantidade de água - e dos demais serviços ecossistêmicos ofertados na região. À frente da secretaria executiva do Consórcio está a Federação dos Cafeicultores do Cerrado, entidade que representa, controla e promove a Denominação de Origem e o Plano de Desenvolvimento e Sustentabilidade da Cafeicultura do Cerrado Mineiro, que tem sede em Patrocínio, cidade onde se encontra o projeto piloto do Consórcio.

Uma dessas partes interessadas é a ONG ambiental brasileira Imaflora, responsável por um projeto específico, parte das atividades do Consórcio. Mapear a condição natural atual da região como ferramenta para ajudar os produtores locais a adotar formas de produção (mais) sustentáveis ​​e a cuidar melhor das reservas naturais locais é o objetivo deste projeto que é apoiado pelo CEPF (The Critical Ecosystem Partnership Fund [2]).

Vários atores, diferentes prioridades, perspectiva comum

Como a questão da água afeta vários habitantes da região (na forma de seres humanos, animais e plantas), o Consórcio também se concentra em diferentes interesses. A ideia por trás do Consórcio é conectar o conhecimento e a energia das instituições que representam esses atores para enfrentar o desafio em conjunto. Todas as partes interessadas têm suas próprias necessidades, mas também suas próprias obrigações para resolver o problema.

A colaboração não beneficia apenas os produtores locais de diversos produtos (o café não é o único, pelo qual a região é conhecida, entre outros, pelo excelente queijo), mas também pelos cidadãos de Patrocínio. E não pouco: todo o município depende diretamente da água retirada da bacia em que o Consórcio opera, a “Bacia do Córrego Feio”. Canalizar a água de outro município próximo não é uma opção viável, pois seria muito difícil e caro.

Panorama da bacia em Patrocínio-MG. Imagem de Camilla Nieman.



Outro fator surpreendente é o chamado “pato-mergulhão”(Mergus octosetaceus), listado na Lista Vermelha de Espécies Ameaçadas da IUCN. No momento, Patrocínio é uma das poucas áreas na América do Sul - e no mundo em geral - onde esse pato ainda existe, enquanto já está extinto em países como a Argentina. Parte da escolha de direcionar o foco do Consórcio especificamente para essa bacia deve-se ao fato de que os poucos exemplares existentes de patos-mergulhão brasileiros vive na área. Desde o início do projeto, a Nespresso e a IUCN têm trabalhado para tornar o Consórcio uma plataforma multissetorial, envolvendo instituições de áreas como política, academia e instituições ambientais. O objetivo era criar uma abordagem co-criada por todos os atores, um plano colaborativo. “A IUCN, como mediadora neutra, teve a tarefa de extrair a visão comum dos diversos stakeholders, que têm expectativas e interesses diferentes”, explica Guilherme Amado, gerente de café verde da Nespresso no Brasil. Além disso, a IUCN tem a responsabilidade de coordenar todos os membros e seus vários projetos dentro do Consórcio.

Mesmo que a perspectiva entre os membros varie bastante, há uma forte conexão com a localidade dentro do Consórcio. As instituições locais formam uma grande parte dos membros envolvidos, beneficiando o projeto com o conhecimento local e, com isso, reforçando o caráter inclusivo do Consórcio.

Principais pilares

Como explica Eduardo Trevisan Gonçalves, gerente sênior de projetos do Imaflora, a essência do Consórcio é criar um mecanismo para melhorar as condições para os produtores manterem os ecossistemas naturais que são fundamentais para a produção e a qualidade da água. Três pilares principais da estratégia central definida são:

·        O primeiro pilar, que é o principal produto, consiste na criação de um sistema de valorização do produtor a partir dos Serviços Ecossistêmicos ofertados. Estes serviços são as atividades realizadas em campo que podem beneficiar a conservação da água do Córrego Feio, bem como a biodiversidade local.

·         O segundo pilar consiste em disseminar conhecimentos para produtores e técnicos locais sobre as chamadas “boas práticas” que podem contribuir para os serviços ecossistêmicos, entre elas a restauração do cerrado, práticas de produção climaticamente inteligentes e de conservação dos solos, águas e outros aspectos ambientais. Com o apoio do CEPF, dois manuais serão publicados em breve: um sobre restauração de terras degradadas e outro sobre serviços ecossistêmicos.

·         O terceiro pilar consiste em integrar as partes interessadas realizando reuniões frequentes e mantendo o fluxo de informações e recursos bem gerido - em outras palavras, mantendo o projeto coeso e funcionando.

Espírito pioneiro

O Consórcio Cerrado das Águas é uma iniciativa inovadora em que o conceito de pioneirismo desempenha um papel central. Todos os envolvidos são pioneiros, desde a Federação dos Cafeicultores do Cerrado, o primeiro grupo a conquistar a Denominação de Origem do Café do Cerrado aos outros membros que se emprenharam para a criação da inciativa. 

Amado destaca, de maneira interessante, que “o espírito pioneiro é característico da região devido à história do Cerrado, que viu um fluxo de novos imigrantes a partir de 1975, principalmente italianos e japoneses, que na época eram pioneiros na produção de café.

Mapeamento de produtores da Bacia

Visando elaborar uma estratégia para a realização das atividades de conservação da Bacia do Córrego Feio foi necessária à criação um mapa, a fim de analisar quais partes da bacia estão mais vulneráveis em termos de áreas degradadas e que requerem mais atenção (áreas onde o reflorestamento é necessário, por exemplo). Este mapa foi complementado por entrevistas com os donos e moradores dos imóveis localizados na bacia. Nesse sentido, a equipe de georreferenciamento do Imaflora desenvolveu o mapa e a CerVivo, ONG de Patrocino liderada pela bióloga Fabiane Sebaio Almeida, está entrevistando e analisando as informações coletadas em campo.


O mapeamento da região é realizado com um tablet e um mapa interativo, ao qual são adicionadas imagens em vários locais da região. Imagem de Camilla Nieman.


Além de coletar essas informações, a CerVivo, como membro do Consórcio, entra em contato com os produtores locais na bacia para descobrir quem está disposto a participar do projeto. As informações serão utilizadas  para ajudar os produtores  e ofertar  métodos de produção mais sustentáveis,  apoiando  a conservação da água e serviços ecossistêmicos na área.

No decorrer das entrevistas, é constantemente sublinhado aos produtores quais benefícios potenciais eles podem obter com a participação no projeto. Segundo Guilherme Amado: “A ideia é torná-los 'produtores de água' também”, o que significa que os produtores se tornarão conscientes de seu papel na manutenção do ecossistema local, incluindo a presença de água.

O projeto não é simples. Nem todos os produtores estão dispostos a colaborar. No entanto, esse é frequentemente o caso com a introdução de uma inovação, como o Imaflora sabe bem. Não é de um dia para o outro que tais ideias serão aceitas ou mesmo aplicadas. Talvez a construção de uma relação de confiança com os participantes (neste caso, produtores locais (de café) seja a fase mais importante do projeto. Isso é necessário para atingir o objetivo, que é a implementação da estratégia de Valorização dos Produtores que conservam os ecossistemas.

No entanto, a possibilidade de sucesso é alta de acordo com muitos stakeholders. A maioria é positiva em relação ao Consórcio, especialmente devido ao grande impacto que pode ter, graças ao envolvimento direto na iniciativa de muitos setores ativos nessa área.

Consciência da Água

Uma coisa é clara: todo mundo precisa mudar sua ideia e atitude em relação à água: “As pessoas precisam perceber que a água não é infinita”, como diz a jovem professora Jessica Mara Pereira de Souza, da CerVivo. Ela tem certeza sobre o sucesso do Consórcio Cerrado das Águas, pois atinge todos os moradores de Patrocínio, diretamente afetados pelo sucesso do projeto.

A água é preciosa. A água conecta a natureza e as pessoas, em todo o mundo e localmente ao mesmo tempo. Valorizar a água e administrá-la corretamente é, portanto, crucial. Nem todos estão cientes disso, e é por isso que é necessária mais consciência sobre a importância do gerenciamento da água. É exatamente isso que o Consórcio pode fornecer através de vários caminhos. O seu próprio slogan já contribui para essa consciência: "A água de hoje é o fruto da paisagem que construímos ".

Uma das placas colocadas pelo Consórcio na bacia, demonstrando sua presença na região, claramente afirmando o slogan. Imagem de Camilla Niema.



Perspectivas Positivas

Essa iniciativa pode ser um exemplo importante para projetos de sustentabilidade nos quais vários participantes cooperam diretamente e se beneficiam. Deveria enviar uma mensagem positiva de que o trabalho está sendo feito por pessoas excelentes e capazes, e deve inspirar ainda mais a seguir o exemplo.
Nesse meio tempo, será interessante ver como o Consórcio se desenvolve no futuro próximo. Amado espera um grande progresso, e não apenas quando se trata do próprio Consórcio. “Eu trabalho com uma área no Brasil que realmente funciona!”, Ele aponta entusiasticamente, referindo-se à agricultura e aos desenvolvimentos que acontecem nesse campo, com múltiplos produtores (grandes e pequenos) dispostos e aptos a aplicarem essas inovações na prática.

Vejamos o que esta iniciativa nos ensina, com sua rica abordagem e mensagem importante, que resumidamente é: Compartilhe o conhecimento, mantenha a água e apoie a vida local!

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[1] Camilla Nieman é uma historiadora holandesa e jornalista independente. Nos meses de abril e maio de 2018, ela realizou uma pesquisa para o Imaflora sobre seu impacto em várias regiões brasileiras.

[2] https://goo.gl/xc6Ag1


terça-feira, 5 de dezembro de 2017

Consórcio Cerrado das Águas apresenta projeto piloto para restauração da bacia do Córrego-Feio em Patrocínio

Na última segunda-feira, 27 de novembro, o Consórcio Cerrado das Águas realizou no auditório da Expocaccer, em Patrocínio, MG, o evento sobre Paisagens Produtivas Sustentáveis na Bacia do Córrego Feio. O encontro visou discutir oportunidades para a consolidação de um Programa de Pagamentos por Serviços Ambientais (PSA) na região.

Em 2013, a Nespresso e a União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN) iniciaram uma parceria no Brasil, que resultou na criação do Consórcio Cerrado das Águas em 2015. Trata-se de uma plataforma multissetorial, que objetiva reunir atores de importantes cadeias produtivas no Cerrado, de forma com que estes possam trabalhar juntos para a manutenção dos serviços ecossistêmicos dos quais dependem. Hoje, o Consórcio foca na manutenção dos recursos hídricos em sua área piloto – a bacia do Córrego Feio no município de Patrocínio, MG – o principal produtor de café no Brasil. Posteriormente, a iniciativa deverá ser levada para outras bacias, a fim de engajar outras cadeias produtivas.

Juliano Tarabal, Superintendente da Federação dos Cafeicultores do Cerrado, explica a importância do Consórcio para a Região do Cerrado Mineiro, “O Consórcio Cerrado das Águas é hoje um projeto de grande importância estratégica para a Região do Cerrado Mineiro, sendo umas das ações do Plano de Desenvolvimento, Sustentabilidade e Promoção de nossa Região, se constituindo em uma plataforma colaborativa com foco na construção de paisagens produtivas sustentáveis e na produção de água, um recurso vital para o meio urbano e insumo essencial para a agricultura e atividades produtivas como um todo” – finalizou ele.

O Imaflora - Instituto de Manejo e Certificação Florestal e Agrícola membro do Consórcio é a entidade responsável pelo diagnóstico da bacia. Segundo Eduardo Trevisan “Está em construção um mapa da bacia do Córrego Feio, com uma análise de todas as propriedades que estão dentro da bacia, as necessidades de reflorestamento, as áreas que já existem de Cerrado, e as nascentes que são protegidas e desprotegias para em um trabalho futuro com os produtores, que quiserem receber esse diagnóstico para saberem quais as áreas eles podem recuperar, quais necessitam mais ou menos recuperação” – pontuou Trevisan. 

O Consórcio vai ainda, elaborar dois manuais um de restauração do Cerrado, de recuperação de áreas degradadas e um manual de boas práticas para orientar os produtores e os técnicos da Região de como eles podem atuar de maneira mais sustentável e assim, garantir a maior oferta de água para o munícipio de Patrocínio.

Consuelo Marra, Especialista em Recursos Hídricos da Agência Nacional de Águas, explicou sobre o programa de Pagamento por Serviços Ambientais e afirmou que o Consórcio Cerrado das Águas e as ações previstas para o Córrego Feio estão em sintonia com o PSA, sendo portanto, possível a sua implantação. A especialista explicou ainda, que o produtor deve aderir voluntariamente ao programa e será remunerado pelos serviços ambientais que prestar e que serão pré-definidos pelo Consórcio. A forma de remunerar e os valores são estabelecidos em consonância pelo membros do Consórcio, com base em uma metodologia definida.

Guilherme Amado, Gerente de cafés verdes da Nespresso, destacou que este é o primeiro projeto da Nespresso no Brasil e que para seu sucesso é necessário a participação de toda sociedade. “Falamos que é uma responsabilidade compartilhada, hoje trabalhamos com esse piloto na bacia do Córrego Feio, sabemos que os produtores que estão nesta bacia tem suas obrigações legais de reflorestamento e preservação, mas as pessoas que estão na cidade também tem que contribuir para que efetivamente o recurso água esteja disponível não apenas para os produtores, mas também para a cidade. Não deve haver antagonismos os produtores de um lado e a cidade de outro.” – afirmou Amado.

Para a Oficial de Projetos da IUCN - União Internacional para a Conservação da Natureza, Anke Salzmann “O Consórcio Cerrado das Águas é um projeto muito inovador, visto que, hoje no Brasil não existe um projeto em que uma diversidade de atores tão grande esteja envolvida em um consórcio lutando por um objetivo comum que é manutenção e preservação do recurso hídrico. O consórcio ainda está num estágio piloto, mas que pode tomar proporções muito grandes e ser um modelo que possa ser aplicado em outras regiões do mundo” – explicou Salzmann.

Mais de 60 participantes estiveram presentes a reunião entre eles o Presidente da Federação dos Cafeicultores do Cerrado, Francisco Sérgio de Assis; o Presidente da Expocaccer Ricardo Bartholo; o Prefeito de Patrocínio, Deiró Marra, a Vice-diretora do Programa Global de Negócios e Biodiversidade da União Internacional para a Conservação da Natureza, Giulia Carbone; além de representantes das entidades filiadas à Federação dos Cafeicultores do Cerrado, representantes de Comitês de Bacias, clubes de serviços e entidades da sociedade civil organizada. 

Fazem parte do Consórcio a Federação dos Cafeicultores do Cerrado, UICN, Nespresso, Ipê, Imaflora, UTZ, CerVivo, Cooxupé, Daepa e Unicerp.



quinta-feira, 26 de outubro de 2017

Ecoagrícola é a grande vencedora da IX Prova de Cafés Certificados Imaflora - Rainforest Alliance™

A Ecoagrícola Café Limitada, localizada na Chapada da Serra do Cabral, em Minas Gerais, foi a vencedora  da IX Prova de Café promovida pelo Imaflora, com 89,15 pontos. Pela primeira vez, um empreendimento das chapadas conquista a maior pontuação. 

O anúncio foi feito nessa tarde, durante a Semana Internacional do Café, em Belo Horizonte, Minas Gerais. Na edição deste ano, mais de 80 amostras foram avaliadas pela equipe do Prof. Dr. Flavio Borém. 

A Classificação final foi:

Empresa/produtor
Nome da propriedade
Processamento
Nota Final
1.
Ecoagricola Café Ltda
Ecoagricola Café Ltda
CD
89,15
2.
Inacio Carlos Urban
Fazenda Rio Brilhante Café
Natural
89
3.
Eduardo Pinheiro Campos
Fazenda Dona Nenem
Natural
87,90
4.
Marcio Borges Castro Alves
Fazenda Barinas
Natural
87,50
5.
Evandro Sanchez
Fazenda Dois Irmãos –
Cafés Especiais
Natural
87,34
6.
Icatu Agropecuária Ltda
Fazenda Barreiro
CD
86,10
7.
Nagipe Viana Klem
Fazenda Klem
CD
86,05
8.
Maria Rogeria Costa Pereira
Irmas Pereira
CD
86
9.
José Padial
São Jose
Natural
85,70
10.
Fal Holdings Participações Ltda
-
Natural
85,40
11.
Décio Bruxel
Fazenda Chuá
CD
85
12.
Tomio Fukuda
Baú
Natural
84,80
13.
Esmerino Joaquim Ribeiro do Vale
Fazenda São José
CD
84,55
14.
Luiz Augusto Pareira Monguilod
Fazenda Monte Carmelo –
Lugar Jabuticaba
Natural
84,15

As Provas de Café realizadas anualmente pelo IMAFLORA tem o objetivo de demonstrar que a qualidade em processos e produtos é parte fundamental da sustentabilidade em fazendas de café. “ A certificação é uma ferramenta de mercado que atesta a forma de produção e os princípios de sustentabilidade atendidos, mas a qualidade do produto é fundamental para que possa haver agregação de valor à bebida”, diz Eduardo Trevisan, gerente de projetos em mercados e assistência técnica do Imaflora. 

Todas as amostras foram analisadas por um júri que reuniu especialistas  certificados pela Specialty Coffee Association of America , ou Q Graders Licenciados pelo Coffee Quality Institute.



quinta-feira, 24 de agosto de 2017

Universidade de Lavras já está recebendo as amostras para a IX Prova de Cafés Certificados - Imaflora/ Rainforest Alliance™

Os empreendimentos de café que quiserem participar da IX Prova de Cafés Certificados – Imaflora/ Rainforest Alliance™ têm até o dia 15 de setembro  para enviar amostras dos seus grãos.

O material deve estar identificado e endereçado ao Professor Flávio Meira Borem, do departamento de engenharia, Universidade Federal de Lavras, Campus Universitário, Caixa Postal 3037, Minas Gerais.

As especificações e inscrição podem ser acessadas aqui.  Serão aceitas uma amostra por certificado e no caso de certificações em grupo, será aceita uma amostra por produtor.

Os concursos de café promovidos pelo Imaflora têm como objetivo incentivar a produção dos cafés de alta qualidade, que por meio da certificação, proporcionam ganhos de gestão para o empreendimento, além de benefícios sociais e ambientais, que contribuem para o acesso do produtor a mercados exigentes e diferenciados.