quarta-feira, 19 de dezembro de 2018

Lideranças da Floresta: programa fortalece organizações comunitárias

Os resultados do Programa Liderança da Floresta podem ser medidos de várias formas. Em números, alcançou 731 pessoas, de 21 organizações comunitárias, das cinco regiões do estado, com a realização de seis oficinas temáticas, dois intercâmbios para troca de experiências - um no projeto de Reflorestamento Econômico Consorciado Adensado (Reca), outro na Floresta Estadual do Antimary – assessorias técnicas contínuas e workshops. O Lideranças da Floresta atuou em quatro unidades de conservação do Acre e em oito Programas de Desenvolvimento Sustentável com o apoio de 20 facilitadores, que cruzaram os mais de 152 mil quilômetros do estado por 15 meses.

A iniciativa da Secretaria de Meio Ambiente do Acre - estado que ainda detém 87% de floresta nativa – teve como objetivo de fortalecer as comunidades que trabalham com o manejo de produtos florestais madeireiros e não madeireiros, com a metodologia construída e implementada pelo Imaflora, vencedor da licitação.

Outra forma de mensurar o programa, preferida pela engenheira florestal Júnia Karst, que coordenou o trabalho pelo Imaflora, é por meio dos depoimentos dos comunitários quem participaram dos encontros e apontam os ganhos para  suas comunidades. 

“O processo de encerramento começou com uma oficina de levantamento dos impactos nas comunidades,  com depoimentos das lideranças participantes. Essa reflexão nos mostrou que os resultados do  programa  foram além  dos temas das cadeias produtivas madeireiras e não madeireiras. Proporcionou a união entre as comunidades e o empoderamento dos participantes.”














Na cerimônia de encerramento do Programa Lideranças da Floresta, no auditório da Federação das Indústrias do Estado do Acre, em Rio Branco, os representantes das organizações comunitárias e o Imaflora apresentaram o balanço das atividades. A  sessão contou com a presença  do Secretário de Estado de Meio Ambiente, Carlos Edgard de Deus, do Diretor Executivo de Florestas da Sema,  Marky Brito, do coordenador do Grupo Técnico Ambiental do INCRA, Aristóteles Barros de Medeiros, do presidente da Associação São Francisco de Assis, Cleomilton Rocha Oliveira, que falou em nome das 21 organizações participantes, e de Roberto Palmieri, secretário executivo adjunto do Imaflora.



Os jovens de volta - Um dos ganhos mais importantes do Programa Lideranças da Floresta, apontado pela maioria dos representantes das comunidades, foi a intensa participação dos jovens nas oficinas. Sem tirar o sorriso do rosto, o agricultor familiar Evanildo Lima de Oliveira, de 25 anos, repete em detalhes o que aprendeu nos encontros. “Aprendi como se trata  de uma árvore, a fazer antes o e teste para ver se se ela está oca ou se vai servir. Senão é só desmate da floresta. E aprendi a fazer o corte certo, pra descolar o miolo e aproveitar a árvore todinha”, conta.

Evanildo saiu de Sena Madureira, no Acre, e foi com os pais para Xapuri, aos cinco anos de idade. Conta que naquela época, sair do Seringal Nazaré, na zona rural, onde ainda mora e ir ao centro da cidade, levava dois dias. Eram 62 quilômetros de estrada, a cavalo. Por conta dessa dificuldade, ele só começou a estudar aos 12 anos, quando a escola Estrela da Floresta foi inaugurada na Comunidade União. Depois de terminar a sétima série, só conseguiu fazer um novo curso esse ano, nos encontros promovidos pelo Lideranças da Floresta, na Associação da Reserva Extrativista Chico Mendes. “Imagine a gente sem a floresta. Ia fazer o quê?".


“Vou ensinar pro meu pai e pra minha filha” - Maria Melisangela, moradora da Comunidade São João, no Acre, participou das oficinas de planejamento, práticas de negociação e de comercialização, diversificação da produção e formação de preços, do Programa Lideranças da Floresta. 

Confira o depoimento dela:


A importância do olhar para toda a cadeia - Raimundo Ferreira de Andrade, 67 anos, pai de 10 filhos, e presidente da Associação dos Seringueiros e Agricultores do Riozinho Granada, em Sena Madureira, ensina à família a atividade que aprendeu com os pais. Alterna as coletas da castanha do Brasil e do açaí, cria algumas cabeças de gado, vende farinha que faz com a mandioca do próprio roçado e artesanato de cipó titica.

O dia a dia é garantido pela oferta abundante das frutas da Amazônia que fornecem o ferro, os sais minerais e as vitaminas, pelos ovos e carnes da criação de galinhas, pelo cultivo do milho e da mandioca  e pela determinação de quem, apesar da idade, é arrimo dos netos, desde que perdeu o filho para o tétano, depois de arrancar  um dente.

Durante muitos anos, a seringa foi a atividade principal do seu Raimundo, mas, desde que o látex  perdeu mercado para o produto asiático, as alternativas de renda diminuíram e a  extração da madeira tropical foi a saída  para repor os ganhos  da família.

Ao longo da conversa, no encerramento do Programa Lideranças da Floresta, ele falou  da importância da conservação da  floresta  para a  sua vida, do trabalho para mantê-la em pé e da atenção que aprendeu a dar à cadeia dos produtos do extrativismo.